Quarta-feira, 18 de Janeiro de 2012

Picture in a Frame

(Imagem da Web)





Meu pescoço contorcia-se juntamente com a respiração quente que me segredava na pele um desejo contido por demasiado tempo. Capto os sons da carne que se fundem num martírio de sensações. A razão fora sacudida com tamanha brutalidade que deixara de conseguir ouvir o sussurrar da consciência. O meu corpo era agora o prolongamento das tábuas que suportavam nossos corpos sôfregos e que sucumbiam na berma da loucura. Abres os olhos e respondes-me com o olhar perdido. O chão era a moldura perfeita do rasgar do tempo extraviado por nós. Sinto tuas mãos afastarem-me a roupa do corpo, ali, prostrada no chão. Rendo-me como se fosse forma única de sobrevivência ao caos instalado. Deixei-me ficar ali, inerte, sem força para ripostar numa última tentativa de chegar à consciência confiscada por tuas mãos. As sombras transformavam-se em criaturas nocturnas metamorfoseadas no silêncio amplificado.
Tomo as rédeas da dança e prego-te os pulsos contra o chão, vejo tua pele reluzir na escuridão, teu cheiro, doce afrodisíaco, permito-me ao devaneio e levo-te a caminhos sem possibilidade de retorno.
Cravas-me as unhas na pele e percorres-me o corpo com delicada mestria. A saliva quente mistura-se com a vontade de querer ir mais além, mas a espera era o catalisador perfeito para uma insanidade intencionada.

«Quero-te!»

Passeias-me os lábios húmidos pelo dorso enquanto te imagino dentro de mim. Nossos corpos brilhavam lânguidos de prazer. Afastas-me o cabelo esparso e beijas-me os contornos da face. Tuas mãos aveludadas fazem-me tremer. Sinto teu membro hirto encostado a mim, afastas-te semicerrando o olhar mostrando-me que teria de ser eu a tomar as rédeas. Mas é no pináculo do desejo que nos embriagamos de vontade, ainda que a entrega tivesse de ser meticulosamente calculada. Era um jogo perigoso, audaz, prestes a ser dominado pelos corpos famintos.
Entrelaçamo-nos despidos de preconceitos e entregámo-nos como que se não existisse outra alternativa. Senti-me inundar de prazer e quando nossos corpos passaram a ser um só deixei de respirar, o corpo contorcia-se colado ao teu e deixara de respondera aos meus comandos, preguei minhas mãos no chão, outrora firme, na tentativa de perceber se estaria eu ainda viva. Perdemos a noção do espaço e do tempo!
Não existia consciência que desse corpo à culpa infligida pele debulhar do desejo.

Ainda exausto afagas-me o rosto com a expressão de quem tinha encontrado uma certa paz.

«Amo-te!»

«Não me ames agora, não sem que antes possas recuperar do êxtase e sentir com a verdadeira tenacidade da razão. O desejo tolda-nos a mente e perscruta-nos a alma numa tentativa irrealista de entender o momento.»

Ainda deitado ao meu lado ris-te como uma criança, enquanto desenhas em minha pele traços de uma qualquer felicidade.

«Lá estás tu com as tuas filosofias!»

Sábado, 14 de Janeiro de 2012

Murmúrio




(Imagem da Web)






Para mim não existem respostas objectivas às contendas que a vida me traz. Entro em discórdia comigo própria sempre que a uma interrogação surgem respostas vulgares. Entro em «modo» de profanação ao mundano quando me deparo com pseudo conjecturas, estruturadas pelo comum dos mortais, resultantes de uma qualquer situação, condicionalismos dignos de estereotipação pavloviana. Nem todas as respostas têm como resultado o mesmo estímulo. Não existe linearidade em matéria comportamental.

A vida murmura através da brisa gélida que me tolda o corpo e a mente. Mas permito-me ao deleite sensorial que o frio cortante me traz.
Trago-te pelas ruas cinzentas de mão dada com o passado.

A pele repuxa-me os contornos do rosto cada vez menos jovens; e no entanto, ainda jovens! A controvérsia toma lugar quando observo casais passeantes na calçada da vida, vejo e admiro a capacidade automatizada com que se subjugam à submissão como condição sine qua non para se viver nesta camada física a que chamamos mundo. Mas a controvérsia tem uma origem bem mais complexa no meu consciente. Rejeito o concreto como forma de estar, não por opção, apenas porque sim. Não o faço com a consciência de que me torna diferente, mas sei ser esse o resultado, um ser diferente, eternamente interrogativo e inquieto com o que a vida me traz de mão beijada. Preciso de respostas para tudo mas rejeito o óbvio. Sou um ser ambiguamente insatisfeito.

Rasgaste o papel que cobria os edifícios das ruas em que nos passeámos como quem destrói um qualquer cenário de teatro no fim da temporada. Entro em conflito com este novo cenário completamente opaco e que me inibe de ver a realidade. Serei eu escrava do inconcreto como forma de ver o mundo? Este meu modo de estar traz-me quezilas constantes. Gostaria de ver-te como um passado lacrado num envelope chamado vida! Queria poder abandonar-te nas mesmas ruas em que te trago sempre colado a um passado demasiado vivo e que me rompe as veias sempre que te tento desmembrar da memória.

Quando te vejo tudo o que julgo ser sólido no espaço em que me encontro se desfaz em partículas indivisíveis ao ponto de deixar de reconhecer onde estou.

Life mumbles your presence like open wounds.

Entrego-me a esse olhar de um modo hipnótico e que destrói tudo o que eu julgo tomar por certo. Roubas-me do sossego apenas com um sorriso. Como eu adorava perceber o porquê. Poderão dizer que te amo, mas amar não é isto, esta prisão castrante que me empurra para o vácuo deixando-me nada mais que um vazio insuportável.
E sei que assim será até que o tempo o queira. Mas não me conformo, vivi-te de um modo submisso e condeno-me até hoje por ter permitido que a vida me desse tão pouco ao teu lado. Dei-te tanto de mim e fiquei apenas com migalhas do que um dia fui. Abdiquei-me do que sou por acreditar num «talvez» que nunca teve verdadeira presença. Deixar de ser «eu» quando te vejo abre-me chagas na alma.

Life mumbles your presence (…) in every step i make! If I cry you enough would you let me live without feeling this pain? Unchain me of this non life I’m living!

Segunda-feira, 2 de Janeiro de 2012

Renascer

(Imagem da Web)



Encosto-me na poltrona que costuma dar vida à minha imaginação. Mas por um qualquer motivo nada toma forma neste consciente inconsciente. As horas passam e as pontas de cigarro amontoam-se bem como o desalento de nada conseguir criar. Noutro qualquer momento tudo seria motivo para traçar umas linhas de raciocínio fantasioso.
Desisto!

A motivação esgueirou-se através do silêncio bem como o teu sorriso daquela noite. Foste o reviver de sensações, há demasiado tempo esquecidas, de um passado que me atormentava a alma. Se ao menos me pudesses desvendar o olhar, saberias que existe muito mais para ler num corpo atormentado do que apenas o desejo! O corpo é a cifra mais complexa do universo que transporta consigo uma chave em permanente mutação. Abneguei-me ao direito de sentir durante demasiado tempo, e o retorno ao mundo das sensações revelou-se tão extasiante como o regresso a um velho vicio, trazendo com isso a velha ressaca. Eu sabia os riscos, e ainda assim, deixei-te entrar neste meu mundo idiossincrático. Se ao menos pudesses ver o quanto me perturbas com esse teu jeito desprendido, com as gargalhadas infantis que desferes por uma qualquer tolice, com a beleza do teu sorriso, com esse jeito de menino que apenas precisa de um canto chamado conforto.
Apenas esse teu jeito de ser!

Tenho vivido estes últimos anos num vazio que se instalou após demasiadas desilusões. Fora-me roubada a inocência, e com ela a credulidade do que outros chamam felicidade. Sonhos desfeitos serviram de pretexto para a clausura. A dor de não sentir tornara-se tão insuportável que procurei em tudo o que me rodeava um conforto que apenas existia na minha vontade. Construí barreiras em meu redor que me barricavam do exterior, numa pseudo crença de protecção; julgara eu! Protegia-me de tal forma que deixei de contracenar no palco da vida. E assim fui-me tornando num ser seco e amargurado. Ensaiei este papel durante tanto tempo que eu própria passei a acreditar ser este o melhor modo de «não» viver.

Sempre te soube de outra, ou talvez outras, mas por um motivo que não sei desvendar transportaste-me para fora desta cápsula, mesmo na impossibilidade de te poder ter. Trouxeste-me de volta à realidade, e agora tudo o que me resta é saber renascer das cinzas e (re)aprender a viver, assim como uma criança que gatinha na avidez de dar o primeiro passo. Não te trago envolto em rancor, pois a dor de sentir é muito mais reconfortante do que a dor de não sentir!

Terça-feira, 22 de Novembro de 2011

O vento ao sabor de mim

(Imagem da Web)





Poderia exibir um título exuberante ao estilo dramático corrente que exibe uma doçura encastrada; - falsa? Não, não me encontro decerto ao sabor do vento, tal atitude passiva e amorfa deixa-me aviltada numa inquietude de querer ir mais além do comum e vulgar. Este meu jeito distinto de ver a realidade torna-se, por vezes, num embaraço de sensações que se amontoam em crónicas vivas no meu consciente e me deslumbram diariamente impedindo-me de viver determinados momentos do mesmo modo que o comum dos mortais. Defeito?! A afectação ao mundano e ordinário prolifera-se em mim como uma úlcera viva e sangrenta capaz de me rasgar o interior e molestar o que de são existe em mim. Perco-me na viva luz do imaginário e temo por vezes de lá não ter forças para sair. Erro? Na mórbida sabujice pelo concreto que o ser humano teima em achar algo fascinante, deleito-me criando um pequeno e recôndito mundo que só a mim pertence e que floresce sempre que a conjuntura me permite; ou não! Vulgar seria se criasse um mundo alheio aos dos demais. Viver em dois mundos assimétricos em simultâneo é por demais delicioso e inebriante. Sinto, saboreio, vejo e escuto como todo o ser humano, apenas imagino de modo diferente. Contraceno um papel não ensaiado que me permite respirar numa atmosfera não modificada ou contaminada por ideais alheios. Sinto-me apenas livre num eu contrastante com o que eu vejo e sinto ser demasiado fugaz para conseguir respirar.
Como tal, amo, sonho e realizo-me de maneira diferente. Não que isso se note a olhos desapercebidos. Mas preciso isolar-me nesta cápsula intemporal que me vai protegendo da podridão que me rodeia.
Simplesmente um modo de viver!
Trago-te neste mundo isolado obrigando-te ao deleite de me saboreares sem que para isso te tenha de coagir. És meu, assim como de toda gente que em ti tropeça. O que levas de mim? O som? Ou o sabor incutido num cheiro transformado e mutilado por um corpo cansado? Ou será que gravas na memória do tempo a insensatez com que por vezes nos batalhamos? Debruças-te em meu regaço sem te aperceberes que me desassossegas. E tu? Deixas por vezes o cheiro das ruas lamacentas que gravam em si o deambular de folhas caídas e dejectos pútridos dos corpos cromossomáticamente evoluídos na esfera temporal. Recuso-me abraçar-te para sentir o que não quero. Lê-me o corpo através dos sentidos que fores capaz de absorver na efemeridade do momento em que por mim te cruzas. Para ti serei sempre novidade e a rotina não toma lugar em nenhuma plataforma.
Interrogo-me se estarei eu consciente da inconsciência que é falar com o vento. Mas neste mundo a consciência não toma lugar ou partido, e é nele que construo vagões cheios de memórias do que o vento de mim levou sem deixar nada em troca. Angustia? Não! Apenas constatações desprovidas de qualquer sentimento de perda ou moléstia. O ser humano não veio para viver o mundo, o mundo existe para viver de nós! Somos meras partículas no gigante vácuo que ninguém sabe onde começa ou sequer se termina. Vive-me, pois só assim saberei que o pulso que me dá vida faz alguma diferença na memória do tempo que todos acham fugaz!

Sexta-feira, 19 de Agosto de 2011

Dar a volta ao prego

(Imagem da Web)








Foi-me pedido que escrevesse sobre o tema mencionado em título, mas para fabricar algo por palavras teria de ser um texto deveres diferente, durante um café surgiram-me algumas ideias, mas de facto é um tema que sugere uma ideia específica. Ainda assim, sinto-me tentada em recorrer ao invulgar para expor literariamente o tema.
Ao falar-se em virar o bico ao prego é suposto a nossa mente produzir uma ideia preconcebida, uma ideia de que alguém acabou de dizer exactamente o oposto do que havia dito antes. Como tal, alterei ligeiramente a frase, dizer “dar a volta ao prego” torna-se muito mais sugestivo, e embora possa ser confundido com a frase inicial, dá-nos uma certa margem de criatividade.
Ligando a máquina que me gera imagens (por vezes inóspitas) só me ocorre uma coisa, um idiota (diga-se idiota um individuo cuja atitude/postura seja invulgar ao ponto de se incorrer em caracterização imediata e estereotipada) à beira da piscina de sua casa que ao se revirar numa espreguiçadeira de madeira, construída artesanalmente pelo mesmo, faz guinchar a pobre coitada, já cansada do ócio do indivíduo. Este mesmo indivíduo parece nada mais nada menos que um ser amorfo, uma junção de matéria inútil, rebolante e vegetativa que se tenta camuflar no meio em que está como se de um peixe na água se tratasse. Uma volta, outra, e mais uma! Lá está, uma amiba em forma de gente a deliciar-se com os raios de sol que cobrem a pele peluda e cheia de dunas capazes de fazer qualquer insecto rastejante sentir-se num verdadeiro Dakar. Será por isso que os nojentos bichos se sentem tentados em se regozijarem com longos passeios pelo nosso corpo? Não emagreças não! Ui, tenho de sacudir a máquina, algo estava a corromper o processo de formação de imagens e a lançar despojos repugnantes na objectiva. Ora bem, lá está, mais uma volta ao prego, e a imagem que se segue não é de todo muito melhor do que a que estava a surgir anteriormente. Um elástico forrado de um pano em tons de um vermelho tão vivo como o da nossa maravilhosa bandeira nacional está a vincar uma zona ligeiramente acima ao que poderia ser o glúteo do indivíduo, sim, poderia, porque eu lembro-me de ter aulas de ciências e um glúteo não tem aquela forma, aliás, ausência de forma! Wow, a amiba desliza pela espreguiçadeira, e ao levantar-se esta quase que lhe faz ricochete. Estava na hora de molhar o prego. E eis que o prego sem tomar consciência da violência prestes a ser cometida para com a coitada da água, feliz e em repouso, lança-se de súbito e sem aviso para a piscina. Splaaaaaaaaaaaaaaaaash! Digam lá que isto não é uma violência contra a natureza? E como se não bastasse, o idiota deixa-se ficar com os braços penduradas à beira da piscina à espera sabe-se lá do quê. Até uma lontra tem membros mais elegantes. “Shlock, shlock, shlock”, é o som da amiba a deslocar-se novamente em direcção à espreguiçadeira que grita em tons de súplica quando ele se debruça sobre ela. Mais uma volta ao prego, e muitas outras se sucederam no decorrer do espaço temporal em que a máquina foi projectando este filme, capaz de fazer frente à série “Masters of horror”.
Fim de emissão!


Com este texto pretendo nada mais nada menos que cumprir com o que me fora pedido, produzir algo por palavras que fizesse referência ao tema já mencionado. Temo ter fugido ligeiramente ao acordado, mas, a máquina é falaciosa e debita apenas as imagens que quer, tem vontade própria, e de nada vale tentar contrariá-la.