Segunda-feira, 20 de Dezembro de 2010

Viver no cinzento

Desafio semanal do Campeonato Nacional de Escrita Criativa:
Joana é uma mulher de 35 anos que vive para receber a apreciação dos outros e que é terrivelmente pouco confiante em si mesma. Escreva sobre ela.



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(Imagem da Web)



Vacilando entre prédios cheios de olhares rotineiros de quem ali passa, Joana toma o rumo, o mesmo de sempre. Era um dia, mais um, em que os ponteiros do relógio lhe mostravam a velocidade do tempo que a atropelava na maciez dos seus passos, cada vez mais cansados – de si mesma!

Viajava a cada instante na imensidão do seu imaginário, fingindo-se feliz na encenação que fazia de sua vida. Mas a frustração seria, de novo, erguida pelo ressoar constante da alegria alheia, da qual nunca tomara parte. Sentia-se invisível, um nada no meio da multidão e uma imensidão na solidão da sua vida.

À medida que os anos voavam Joana impedia-se de deixar o romance entrar em sua vida. Amar era algo que via descrito em folhas de venda barata pelas livrarias, o resto considerava ser mera utopia. Amar significaria renuncias, sacrifícios – de quê? Joana nada tinha a não ser uma vida vulgar, recheada de todas as vulgaridades possíveis e que decerto não suscitariam o mais leve interesse a um homem minimamente interessante.

Cambaleando de uma pressa que a fizera tropeçar no final das escadas do prédio vai de encontro a um vulto gigante. A primeira coisa que avistara fora uns Prada elegantíssimos mesmo em frente das suas vulgares botas de cano alto compradas numa loja em liquidação.

- Peço imensa desculpa…

O ar gelara a ponto de eternizar aquele momento quase em jeito de um filme Tarantiniano!

- A Sr.ª sente-se bem? Está aí parada a olhar para mim, sou assim tão assustador a ponto de fazê-la perder a fala?
Solta-se um riso trémulo e Joana refaz-se da surpresa que lhe tomara conta dos sentidos, e do seu imaginário viajante.
- Nada disso, peço imensa desculpa por tê-lo abalroado desta maneira.
Desviando-se daquele porte sedutor, Joana tenciona seguir com a sua rotina programada.
- Permita-me que a convide a tomar um café, presumo que o facto de vir a descer as escadas signifique que mora no prédio. Sou o seu novo vizinho.
Um convite, beber café, um homem – sedutor!

- Engraçado como ainda não me perguntou a idade, o que faço…
- De vulgaridades está o mundo cheio. A mim interessa-me descobrir o porquê de um sorriso, de um suspiro, de uma lágrima – sua. A mim, interessa-me descobri-la, não encobri-la com as verdades que criou em seu redor.
Texto escrito para o Campeonato Nacional de Escrita Criativa

1 comentários:

Daniela disse...

Um final com uma lufada de esperança! :) Delicioso...