Hoje dei por mim a recordar um dos momentos mais devastadores na minha vida, o dia em que conheci a pessoa que mais me fez duvidar de todos os conceitos pré-concebidos no meu imaginário do que seria a pessoa ideal para mim. Até então achara que o homem ideal seria meigo, delicado, humilde, paciente, generoso, fiel…e que seria impossível apaixonar-me pelo oposto de tudo isto, não fazia qualquer sentido no meu consciente que um homem que não possuísse todos estes requintes seria algum dia o dono de meus sentimentos, de meu coração, da minha dedicação. Diria até que cheguei a discutir em conversas abertas com amigas e amigos que não toleraria no meu parceiro todas aquelas “atrocidades” emocionais pelos seus parceiros praticadas, era para mim ridículo que o amor fosse aquilo que durante tanto tempo eu ouvia os meus amigos comentarem, era estranho ver o quanto o amor lhes “doía” para atingir um pouco de uma qualquer felicidade por eles descrita, nem eu conseguia muito bem acreditar de que felicidade estariam eles a falar. No fundo, era tudo estranho para mim, critiquei, repudiei, cheguei até a tecer comentários cruéis durante aquelas conversas. Até que deixei simplesmente de comentar, e já só me ria, comecei a sentir, então, uma espécie de divertimento pelo ridículo a que assistia constantemente, não que eu me divertisse com a desgraça alheia, nada disso, mas quando uma amiga se chegava perto de mim de olhos esbugalhados e nariz fanhoso porque o namorado tinha preferido sair com os amigos e a havia deixado “pendurada”, perguntava a mim mesma: “Oh meu Deus, como é que é possível esta rapariga ter tão fraca auto-estima?” Sim, porque para ela estar naquele estado deplorável é porque algo estava errado, o mundo não acaba só porque numa noite o namorado não esteve ao lado dela!Arrependi-me amargamente de todos aqueles pensamentos, de tantas criticas e gargalhadas, achava que era a dona da razão no que dizia respeito ao amor, e nem sabia ainda o que ele iria significar na minha vida!
Éramos apenas bons amigos, aliás, ele era o meu melhor amigo, digamos que sem ele eu não conseguia ter a ousadia de tomar qualquer decisão importante na minha vida.
Tudo começou com uma brincadeira, uma troca de olhares indiscretos no meio do nosso local de trabalho, um partilhar de gargalhadas advindas de uma ou outra situação só por nós entendida, éramos como um só, entendíamo-nos no topo da escala da perfeição. E no meio de tanta perfeição que víamos em nosso redor, aconteceu o que menos esperávamos, o desejo bateu-nos à porta, éramos homem e mulher, ambos sem compromissos declarados, apenas bons aventureiros ao sabor das emoções que nos apareciam no momento. Sem muito pensar, deixámos que nossos corpos remassem na maré do desejo. Era tudo um pecado aos meus olhos, um pecado demasiado aprazível aos meus sentidos, mas ainda assim, um pecado, ele era algo proibido no meu mundo, era impossível estar a apaixonar-me pelo meu melhor amigo, era simplesmente algo proibido. Contudo, não teci qualquer tipo de renúncia sobre tal pecado!
Após tantos momentos de desejo saciado, começaram a aparecer outros momentos, os de angústia profunda, uma amizade demasiado perfeita havia sofrido diversas metamorfoses, primeiro passara a desejo, mais tarde a paixão, amor, e por fim, a ódio! Ele era um dos homens mais desejados no nosso meio, bonito, elegante, era detentor de uma postura cativante, um olhar sedutor e um sorriso esmagador!
Um dia interroguei-o ferozmente sobre as suas atitudes, tinha-se tornado frio, arrogante, assentimental. Cada vez me sentia mais encurralada em dúvidas e angústias, mas mesmo assim, não abdicava de nós.
Não há maior pecado do que deixarmo-nos sofrer por um amor não correspondido, deixarmo-nos anular em prol de uma crença de possível felicidade! Tornei-me observadora passiva do desmoronar da nossa relação.
Quando dei por mim, vi-me só, sem amor, sem amizade, apenas num vazio avassalador!
Cometi tantos pecados no decorrer deste período, e um deles foi ter-me enganado a mim mesma. Tinha perdido a noção da realidade, deixei-me levar pela tristeza e revia-me nos olhares perdidos dos meus amigos, nas palavras amargas que proferiam e que eu tanto humilhei. Sem dúvida, foi uma das minhas maiores lições de vida, apenas o desejo só não chega para sustentar uma relação, e acredito vivamente que se não fosse ele a abandonar-me, ainda hoje estaria a viver o mesmo papel, pois nada me levava a deixá-lo, ele era a minha crença viva de uma pseudo-felicidade.
História fictícia produzida para a Fábrica de Histórias

