Domingo, 28 de Março de 2010

Saudade

Ainda hoje guardo a lembrança viva da beleza de seus olhos, do modo como eles me tocavam e enchiam o mundo de cor e ternura.
Conhecemo-nos no meio de uma entrevista de trabalho, durante quatro dias ficámos juntos a fazer testes para o mesmo emprego.
Já depois de jantar o grupo que realizava os mesmos testes foi para o mesmo bar para relaxar e tentar socializar um pouco com os restantes. A conversa era animada e era interessante ver o quanto cada um era tão diferente do outro, lançara-se um tema na mesa e enquanto todos se fitavam com os seus próprios ideais pré-concebidos um mundo à parte havia-se formado, eu o moço lindo de olhos azuis que avistei na manhã daquele dia, começámo-nos a deliciar mutuamente com a mesma conversa e ao mesmo tempo uma conversa só nossa, nada mais existia naquele bar, apenas eu e aquele rapaz lindíssimo e interessante cujas palavras pareciam ecoar baladas angelicais. Pensei para comigo estar diante de um anjo, um ser diferente, alguém capaz de me transportar apenas com aquele olhar para seus braços, ainda que apenas em pura fantasia.
Éramos ambos bastante jovens, na flor da inocência e inexperiência, acabados de atingir a maioridade pensávamos saber demais, ter vivido o suficiente para interpretar a vida, éramos pura sede de conhecer…sentir!
E chegado o dia em que iríamos saber os resultados de toda aquela bateria de testes, deu-se o tão triste adeus, mas não antes de receber de suas suaves mãos um livro de Dante e o seu endereço escrito num papel que ainda hoje guardo, sete anos depois.
Chego a casa com a triste noticia de que não tinha conseguido passar nos testes, um abraço carinhoso de meu pai ajudou-me a não desistir e a voltar a tentar, mas a realidade bateu-me a porta e estava na hora de voltar para o trabalho que tinha deixado quatro dias antes. No meio de mais uma chávena de café e umas torradas para uma senhora irritante que reclamava com tudo o que se mexia à face da terra recebo uma sms, mas não posso lê-la, era hora de maior movimento no café, tinha de esperar pelo menos mais uma hora. Meus olhos brilharam mal abri a caixa das mensagens, era ele, o meu anjo, de sorriso rasgado e sem saber o que responder passei cinco minutos de olhos fechados a relembrar seu sorriso e sua voz.
Dediquei-me a ler o livro que me havia emprestado, mas confesso que aquele tipo de literatura era de difícil interpretação para mim, era uma literatura a que não estava minimamente habituada, ainda assim senti-me no dever de ler aquela obra até ao fim. Apenas uma frase daquele livro fez algum sentido para mim, apenas uma e que trago comigo até hoje: “O amor não existe por si só como substância, apenas como um acidente da substância.”
Com o sentimento de dever cumprido, coloco o livro num envelope e envio-o para a morada que me tinha dado.
Recebo resposta, começávamos então uma caminhada separados, mas juntos no que sentíamos ser a perfeição de dois corpos que se amam à distância de um beijo e de um olhar.
Naquela época os telemóveis eram ainda um pouco rudimentares e as redes de comunicação terríveis, passei horas com o braço pendurado num canto específico de meu quarto à espera de uma mensagem, mas confesso, valeu a pena, tenho o registo de todas as mensagens que me enviou, dediquei-me a escrevê-las todas num caderno para um dia ter uma bela memória de nós, de uma relação vivida à distância, mas tão saborosa como os romances que lia na altura. Admito hoje, que após estes sete anos, nunca mais conheci ninguém com uma sensibilidade minimamente semelhante. Era um jovem ainda adolescente, tal como eu, mas possuidor de uma cultura invulgar para aquela idade, bonito e possuidor de uma sensualidade única.
Mais tarde consegui o lugar que tanto queria, o tal emprego. Após gritos de felicidade e pulos de alegria era hora de preparar-me para uma jornada que se sabia um pouco difícil.
Faço as malas e digo um último adeus aos meus pais através da janela do comboio. Sento-me e passo a viagem a imaginar como será quando o avistar, afinal já se tinham passado alguns meses, muito poderia ter acontecido apesar de nunca termos rompido qualquer contacto, mas de repente era tudo tão estranho que começo a sentir o estômago ficar pequeno, as pernas a tremer, e uma sensação de desassossego que me impedem de desfrutar da viagem.
Dava tudo para voltar a sentir aquele beijo, um beijo perfeito de quem nunca se tinha antes tocado senão apenas por doces palavras. Foi um dos momentos mais perfeitos da minha vida, e do qual eu sinto tanta saudade. Seu corpo afagava o meu num abraço apertado mostrando-me que estava a sentir o mesmo que eu, o mesmo nervosismo, a mesma ansiedade, a mesma felicidade…e num ataque de repentina euforia seus braços levantam-me no ar e de sua boca apenas pude ouvir: “Finalmente chegaste!”
Fomos namorados, amigos, amantes, companheiros, fomos tudo num só corpo, nós, éramos vistos como um casal único, sempre que nos juntávamos era como se fosse a primeira vez, com a mesma alegria, com a mesma vontade, com o mesmo amor.
Após termos rompido nosso namoro senti-me a divagar de corpo em corpo, necessitava encontra-lo na pele de outros homens, mas ninguém conseguia completar o vazio que se tinha instalado em mim, fingi amar para agradar outros homens, quis acreditar que amar era puro capricho, e que apenas se ama uma só vez nesta vida, tudo o resto não passava de relações efémeras vividas ao sabor de fugazes paixões.
E assim fui vivendo a minha vida, ano após ano, diminuindo a dor de sua perda, deixando aos poucos de o tentar procurar. Hoje resta apenas uma doce saudade daquele que foi um dia um anjo na minha vida, aquele que mais me conhece, que me decifrava com seu olhar e tornava nua minha alma perante si.
Fui sua desde o primeiro olhar por nós trocado! E no decorrer destes anos fomos vendo o quanto éramos demasiado jovens para viver tão grande amor, fomos lutadores incapazes de saber lidar com os problemas e cobardes para os enfrentar.
Sinto saudade, e a saudade é apenas uma companheira que me mostra em tempos de tristeza o quanto um dia eu fui feliz!
História produzida para a Fábrica de histórias

Quarta-feira, 3 de Março de 2010

Palavras para uma imagem

Escrevo hoje, pela primeira vez, sem uma imagem que defina o que aqui escrevo, não há imagem alguma que possa caracterizar tamanha dor.
Ele era o meu maior orgulho, a minha razão de lutar, um ser obstinado e de vincadas convicções, uma personalidade única de quem cedo começou a lutar nesta vida cruel, por nós e para nós. Um homem pujante e determinado. Um verdadeiro Pai!
Fui educada para ser forte, livre, para não temer nada nem ninguém, mas no momento que o perdi todas as minhas convicções foram abaladas.
Estava na minha hora de almoço quando recebi o telefonema mais doloroso da minha vida. Senti a pele rasgar-se num turbilhão de emoções, o cenário que me envolvia tornou-se gigante como se me fosse engolir em tanta dor, e sem conseguir ouvir ninguém as lágrimas que jorravam de meu rosto sucumbiram dando lugar a uma feição pálida, inexpressiva, revi todos os momentos contigo passados, o desespero aclamava para que esses momentos não acabassem, para que a vida me permitisse poder viver-te um pouco mais.
Foi um ápice desde que te vi numa cadeira de rodas até te entregares por completo a uma cama, o cansaço denunciava-me sempre que por mim chamavas. Já não sabia o que fazer para acalmar a tua dor diária, o teu sofrimento constante. Todos os dias um pouco de mim morria por dentro ao ver-te partir lentamente, ao ver-te entregares a vida de mão beijada, deixaste de lutar, porquê? Dizem-me constantemente que foi melhor assim. Tento não ser mal-educada, respondo afirmativamente e com a delicadeza que me é esperada, mas a vontade que assalta meu corpo é de gritar, gritar em tom de fúria, para que percebam a dor que me corrói, a dor que devasta meu ser, melhor seria ele nunca ter adoecido, ser hoje o que até a poucos meses ele era, o meu herói, o meu orgulho!
Ainda fardada fui buscar seu corpo, não sabia o que pensar, o que sentir, o que fazer, tinha de ter a força que minha mãe deixara desvanecer, ela precisava de mim!
A imagem de ti dentro de um par de tábuas bem arranjadas e ornamentadas fez meu corpo cair ao chão, como se nada mais fizesse sentido, como se eu própria não conseguisse mais pertencer a este mundo, era a constatação de uma realidade que eu recusava admitir! Foi tudo tão rápido, tão rápido, quando te encontrei tua pele ainda expulsava calor, beijei-te até as forças me arrasarem de novo contra o chão.
Aquele cheiro em tons florais provocou-me, tive vontade de te perfumar com algo decente que não aquele cheiro barato com que te besuntaram, ainda hoje sinto aquele cheiro nauseabundo entranhado em mim. Passei a noite ao teu lado, vi-te respirar, vi-te mexer, a loucura começara a tomar posse da minha percepção, já não conseguia discernir a realidade, estava tudo errado na minha mente, sempre que te olhava nada naquele cenário fazia sentido. Tu, coberto de flores, como era possível? Se eu pudesse e a sanidade não me fosse questionada, eu arrasaria com cada ramo de flores em ti sobreposto. Odeio convencionalismos, emoções e sentimentos não se treinam, não se coadunam consoante as situações, rompem de nós, são pura vontade própria e não pedem autorização para agir. Mas era muito mais importante as senhoras da aldeia verem-nos chorar avassaladoramente.
Olhava a volta e tudo o que via era um grupo de cotovias em plena conversa de taberna, quase que consegui imaginar a nossa volta um par de mesas de café e tabuleiros a passearem pelo meio com o chá das senhoras. Senti uma raiva tão grande por tamanho desrespeito, preferia estar ali sozinha ao teu lado, só queria que me deixassem contemplar-te nos últimos momentos que me restavam ao teu lado, até isso me foi roubado.
A vida levou-te sem qualquer piedade, fez-te sofrer até ao teu ultimo suspiro, impediu-me de te poder acompanhar um pouco mais…e sem mais poder fazer, limitei-me a ver a terra ser lançada sobre ti!
Esta será a última vez que escreverei para ti, lembrar-te em palavras novamente seria perpetuar uma dor que me consome. És, e serás sempre a minha imagem de amor, dedicação e fidelidade!
Amo-te.
História real produzida para a fábrica de histórias