Ainda hoje guardo a lembrança viva da beleza de seus olhos, do modo como eles me tocavam e enchiam o mundo de cor e ternura.Conhecemo-nos no meio de uma entrevista de trabalho, durante quatro dias ficámos juntos a fazer testes para o mesmo emprego.
Já depois de jantar o grupo que realizava os mesmos testes foi para o mesmo bar para relaxar e tentar socializar um pouco com os restantes. A conversa era animada e era interessante ver o quanto cada um era tão diferente do outro, lançara-se um tema na mesa e enquanto todos se fitavam com os seus próprios ideais pré-concebidos um mundo à parte havia-se formado, eu o moço lindo de olhos azuis que avistei na manhã daquele dia, começámo-nos a deliciar mutuamente com a mesma conversa e ao mesmo tempo uma conversa só nossa, nada mais existia naquele bar, apenas eu e aquele rapaz lindíssimo e interessante cujas palavras pareciam ecoar baladas angelicais. Pensei para comigo estar diante de um anjo, um ser diferente, alguém capaz de me transportar apenas com aquele olhar para seus braços, ainda que apenas em pura fantasia.
Éramos ambos bastante jovens, na flor da inocência e inexperiência, acabados de atingir a maioridade pensávamos saber demais, ter vivido o suficiente para interpretar a vida, éramos pura sede de conhecer…sentir!
E chegado o dia em que iríamos saber os resultados de toda aquela bateria de testes, deu-se o tão triste adeus, mas não antes de receber de suas suaves mãos um livro de Dante e o seu endereço escrito num papel que ainda hoje guardo, sete anos depois.
Chego a casa com a triste noticia de que não tinha conseguido passar nos testes, um abraço carinhoso de meu pai ajudou-me a não desistir e a voltar a tentar, mas a realidade bateu-me a porta e estava na hora de voltar para o trabalho que tinha deixado quatro dias antes. No meio de mais uma chávena de café e umas torradas para uma senhora irritante que reclamava com tudo o que se mexia à face da terra recebo uma sms, mas não posso lê-la, era hora de maior movimento no café, tinha de esperar pelo menos mais uma hora. Meus olhos brilharam mal abri a caixa das mensagens, era ele, o meu anjo, de sorriso rasgado e sem saber o que responder passei cinco minutos de olhos fechados a relembrar seu sorriso e sua voz.
Dediquei-me a ler o livro que me havia emprestado, mas confesso que aquele tipo de literatura era de difícil interpretação para mim, era uma literatura a que não estava minimamente habituada, ainda assim senti-me no dever de ler aquela obra até ao fim. Apenas uma frase daquele livro fez algum sentido para mim, apenas uma e que trago comigo até hoje: “O amor não existe por si só como substância, apenas como um acidente da substância.”
Com o sentimento de dever cumprido, coloco o livro num envelope e envio-o para a morada que me tinha dado.
Recebo resposta, começávamos então uma caminhada separados, mas juntos no que sentíamos ser a perfeição de dois corpos que se amam à distância de um beijo e de um olhar.
Naquela época os telemóveis eram ainda um pouco rudimentares e as redes de comunicação terríveis, passei horas com o braço pendurado num canto específico de meu quarto à espera de uma mensagem, mas confesso, valeu a pena, tenho o registo de todas as mensagens que me enviou, dediquei-me a escrevê-las todas num caderno para um dia ter uma bela memória de nós, de uma relação vivida à distância, mas tão saborosa como os romances que lia na altura. Admito hoje, que após estes sete anos, nunca mais conheci ninguém com uma sensibilidade minimamente semelhante. Era um jovem ainda adolescente, tal como eu, mas possuidor de uma cultura invulgar para aquela idade, bonito e possuidor de uma sensualidade única.
Mais tarde consegui o lugar que tanto queria, o tal emprego. Após gritos de felicidade e pulos de alegria era hora de preparar-me para uma jornada que se sabia um pouco difícil.
Faço as malas e digo um último adeus aos meus pais através da janela do comboio. Sento-me e passo a viagem a imaginar como será quando o avistar, afinal já se tinham passado alguns meses, muito poderia ter acontecido apesar de nunca termos rompido qualquer contacto, mas de repente era tudo tão estranho que começo a sentir o estômago ficar pequeno, as pernas a tremer, e uma sensação de desassossego que me impedem de desfrutar da viagem.
Dava tudo para voltar a sentir aquele beijo, um beijo perfeito de quem nunca se tinha antes tocado senão apenas por doces palavras. Foi um dos momentos mais perfeitos da minha vida, e do qual eu sinto tanta saudade. Seu corpo afagava o meu num abraço apertado mostrando-me que estava a sentir o mesmo que eu, o mesmo nervosismo, a mesma ansiedade, a mesma felicidade…e num ataque de repentina euforia seus braços levantam-me no ar e de sua boca apenas pude ouvir: “Finalmente chegaste!”
Fomos namorados, amigos, amantes, companheiros, fomos tudo num só corpo, nós, éramos vistos como um casal único, sempre que nos juntávamos era como se fosse a primeira vez, com a mesma alegria, com a mesma vontade, com o mesmo amor.
Após termos rompido nosso namoro senti-me a divagar de corpo em corpo, necessitava encontra-lo na pele de outros homens, mas ninguém conseguia completar o vazio que se tinha instalado em mim, fingi amar para agradar outros homens, quis acreditar que amar era puro capricho, e que apenas se ama uma só vez nesta vida, tudo o resto não passava de relações efémeras vividas ao sabor de fugazes paixões.
E assim fui vivendo a minha vida, ano após ano, diminuindo a dor de sua perda, deixando aos poucos de o tentar procurar. Hoje resta apenas uma doce saudade daquele que foi um dia um anjo na minha vida, aquele que mais me conhece, que me decifrava com seu olhar e tornava nua minha alma perante si.
Fui sua desde o primeiro olhar por nós trocado! E no decorrer destes anos fomos vendo o quanto éramos demasiado jovens para viver tão grande amor, fomos lutadores incapazes de saber lidar com os problemas e cobardes para os enfrentar.
Sinto saudade, e a saudade é apenas uma companheira que me mostra em tempos de tristeza o quanto um dia eu fui feliz!
História produzida para a Fábrica de histórias