Era suposto ser apenas uma consulta de rotina, uma ida anual ao ginecologista que não prometia nada mais do que uns belos vinte a trinta minutos de conversa com o seu médico. Laura sentia sempre uma espécie de obrigação em cumprir com as consultas anuais escrupulosamente, quase em agradecimento com Deus por lhe dar a oportunidade que muitas mulheres não tinham, a possibilidade de ir a um médico particular sem ter de contar os tostões para o resto do mês. Laura não vivia de grandes posses, não era uma mulher rica, mas sentia-se feliz com o pouco que tinha, lutara muito para ter um bom emprego que não lhe dava razões de grandes angústias. Vivia uma vida pacata e sentia-se feliz com as mais pequenas coisas que a vida lhe oferecia.Como de costume, Laura levantara-se cedo para não ter problemas em chegar a horas ao consultório. Chegado a hora lá estava Laura a falar com a secretária para confirmar sua presença. Pouco tempo depois estava deitada naquela cadeira desconfortável a todas as mulheres, sentia sempre um friozinho na barriga, mas era sempre algo passageiro, o médico iria fazer o exame do costume e Laura iria para o seu emprego. Mas naquele dia o seu médico não fez apenas um exame rotineiro, mal ela sentiu o olhar desconcertante do médico o nervosismo tomou posse de seu corpo e só não saltava da cadeira por mero convencionalismo comportamental. Laura, fustigada pela curiosidade abrupta que tomara conta de seu estado rompeu o silêncio instalado naquele consultório e disse: - Por favor doutor, diga-me o que se passa, viu algo de errado? – O seu médico para tentar acalmar Laura pediu que esta se vestisse e que já falariam. Seu corpo tremia, suas mãos suavam, Laura pressentia o pior e estava com vontade de chorar e nem sabia ainda quais as conclusões de seu médico.
- Laura, vou pedir-lhe que faça alguns exames para confirmar o que vi, não quero que se sinta assustada, pode ser apenas falso alarme.
Quebrada pela agonia ajoelha-se no chão e desvanece em lágrimas, era ora de abrir o envelope com o resultado dos exames. O pior cenário transformara-se em realidade. Rasgou aquele papel em mil pedacinhos, a raiva tinha tomado conta de si e o discernimento evaporara-se por completo naquele momento. Juntando cada pedacinho de papel rasgado pelo medo do que não queria enfrentar, as lágrimas ganham vida em sua pele, agarrada a seu corpo, com as mãos torcendo a roupa, Laura viu o abismo chegar sem aviso, devorando suas emoções, dizendo-lhe que a calma de seus dias tinha chegado ao fim.
Um mês depois e Laura encontrava-se a fazer o primeiro tratamento de quimioterapia. Sozinha, sem ninguém para lhe segurar na mão quando saísse daquele sítio enfermo, a cheirar a morte prematura.
Laura perdera o sorriso que a caracterizava, os dias foram-se tornando penosos, e a cada ida ao tratamento de quimioterapia era apenas mais um querer sair de seu corpo, cada tratamento significada mais uma agonia. Sentia-se fraca, perdera a vontade de viver. Ao chegar a casa, e já sem conseguir disfarçar o seu problema capilar, Laura perde-se no silêncio transtornante de quem se vê sozinha, com medo dos olhares piedosos de seus amigos, escondeu a verdade da própria sombra, quis levar a cabo uma travessia sem fim longe da companhia dos que mais precisava.
Viu seus sonhos encimados num vazio cortante, dilacerados por uma verdade que não pediu. Afinal, era suposto ter sido apenas uma consulta de rotina.
Laura fez pequenos cálculos mentais e achou que poderia tirar uma licença sem vencimento durante o tempo da quimioterapia, recusava usar chapéus, gorros ou até mesmo peruca para disfarçar a falta de cabelo. Ao olhar-se ao espelho decidiu que não iria continuar a disfarçar a sua situação no trabalho, precisava estar sozinha, ainda mais sozinha, fechada, naquele seu mundo criado com tanto ódio pela vida. Chegou a pegar numa faca para por fim à sua angústia, mas a cobardia vergou suas mãos. Sentia-se frustrada, teria de morrer lentamente, nem coragem tinha para acabar com o seu sofrimento diário.
Mais uma ida a um tratamento de quimioterapia, e Laura nem sonhava que aquele seria o dia que iria dar um novo sentido à sua vida.
Sentada a espera de ser chamada, largava mais um suspiro de cansaço, sabia que sairia dali directa para casa, como sempre, enfiar-se no seu quarto, escuro, contando que o tempo passasse rápido até adormecer. Ao olhar em redor via apenas tristeza, famílias destruídas por uma doença que chega sem aviso, olha para um canto do teto e pergunta a Deus: - Onde estás tu afinal? Que mal fiz eu para merecer tão vil castigo de tuas mãos? Onde foi que eu errei? Sou uma cidadã honesta, não faço mal a ninguém, ajudo sempre o próximo, o que foi que eu fiz de tão errado para sofrer tanto? – Fechando os olhos e sem mexer os lábios uma lágrima nasce na sua pele pálida procurando um caminho para verter sua dor, eis então que uma mão fria toca no seu rosto limpando aquela lágrima. Laura abre os olhos ainda meio assustada e vê uma criança sorrir para ela, uma menina que não devia ter mais de 6 anos, pensou. Calva, magra da doença que a engolia, Laura não reage, fica ali, imóvel a olhar a criança, perguntando-se do porquê de ela se ter dirigido a ela. Então, num tom doce e meigo a menina responde ao seu olhar perdido: - Deus não te está a castigar, apenas utiliza o mal para te mostrar algo mais bonito, a vida. Se souberes amar e ver o que de bonito ele te pode dar, verás que ele te está a abençoar.
Laura ficou estática. Não sabia o que dizer, nem se havia de reagir. Mas a criança, que aparentava uma sabedoria incomum, agarrou sua mão e levou-a para uma mesa cheia de desenhos coloridos. – Anda, eu estou a fazer um desenho para a minha mãe, ela também chora sempre que me traz aqui, e quando eu lhe dou um desenho ela sorri, se eu te fizer um desenho também sorris para mim?
Laura desata num choro convulsivo e abraça a menina, agradecendo-lhe, sem saber porquê.
Ao chegar a casa, a imagem da menina tinha-se tornado motivo de um sorriso que não conseguia explicar, foi ao quarto, abriu as persianas e deixou a luz escorregar pelas cortinas. Pegou no desenho que a menina fizera e colocou-o no espelho.
No dia a seguir foi entregar uma declaração do médico ao seu patrão que indicava as idas permanentes à quimioterapia. Laura não levava qualquer tipo de artifício que escondesse a sua cabeça rapada. Passou pelos corredores cumprimentando todos, anunciando que estava de volta.
No dia a seguir estava a jantar com os amigos, a brindar ao seu novo visual, sem fazer menção à doença que tentava dominar.
História produzida para a Fabrica de Histórias