Assim que vejo seu sorriso entrar no meu gabinete pondero de imediato a hipótese de que me venha contar outra história, mais uma das que não quero ouvir!- Meu querido Alberto, venho informar-te que podes começar a fazer as malas, nous allons à Paris!
- Espera, eu vou já ligar para a radiologia, só podes ter batido com a cabeça.
Matilde solta uma gargalhada e senta-se pousando os cotovelos na secretária meticulosamente organizada.
- Nada disso, o nosso querido director quer que representemos a clínica num congresso que vai ter lugar em Paris, este fim-de-semana.
- Ena, quem diria...eu e tu, em Paris, na cidade do amor…
- Em trabalho Alberto, em trabalho!
Eu sabia que era meramente profissional a nossa ida a Paris, mas ainda assim não pude deixar de sentir o tamborilar dos meus dedos na mesa de tanto nervosismo, não conseguia controlar aquela ansiedade, afinal, pela primeira vez eu e Matilde, sós, num hotel, em Paris. Tudo parecia demasiado surreal!
- Preparaste algumas perguntas sobre o resumo que te dei?
- Minha cara colega, já me deverias conhecer o suficiente para nem ousares fazer tal pergunta.
- Peço desculpa, caro colega.
Este vício que Matilde tinha de entrelaçar seu braço no meu desconcertava-me, nunca sabia o que fazer, mal ela se aproximava entrava em estado de transe, aquele perfume a flutuar em redor de sua pele pálida, era o convite perfeito para um beijo sonhado durante toda a minha vida!
Depois de fazermos check in no hotel apressámo-nos por encontrar um bom restaurante, mal eu sonhava no que viria a revelar-se aquela noite!
- Nous voulons un vin de cépage Cabernet-sauvignon!
- Além de dominares o francês, também percebes de vinhos, estou surpreendido.
- Já dizia Mário Quintana, “Por mais raro que seja, ou mais antigo, só um vinho é deveras excelente: Aquele que tu bebes, docemente, com teu mais velho e silencioso amigo.”
- É isso que serei sempre para ti, um velho e silencioso amigo?
O ar tornara-se quase rarefeito naquele instante, Alberto sentiu o coração latejar a uma velocidade estonteante, queria voltar atrás. A garrafa já ia a meio, Matilde fazia o vinho dançar dentro do copo, aquele momento de silêncio estava a matar Alberto! Matilde sabia o quanto Alberto desejara aquele momento.
- Porque anseias tanto amar?
Alberto pigarreou alguns sons sem obter o sucesso de uma resposta.
- Todos os dias vejo nos teus olhos o que tanto de consome por dentro, finjo não te ler os pensamentos. É o melhor para ti Alberto.
- Quer dizer que…tu sabes…o que sinto por ti?
- Sei! E tenho-te poupado a essa revelação por gostar tanto de ti.
- Não percebo.
- Amar não é saudável Alberto, amar é uma auto-anulação de nós mesmos, acreditamos que aquela pessoa merece tudo de nós, sacrifícios, constrangimentos…amar-me não vai fazer de ti um homem mais feliz. És um médico bem sucedido, tens imensas mulheres que dariam tudo para estar contigo, e ainda assim levas uma vida de exclusão porque acreditas numa ideia utópica de amor. Quantas pessoas não perdem tudo por uma história de amor? Se amar fosse tão bom, não achas que deixariam de haver tantas histórias de tragédia romântica?
- Então achas que o estilo de vida que tu levas é o ideal?
Alberto recostou-se na cadeira, quase intimidado pelo repentino olhar soturno lançado por Matilde.
- Alguma vez te tracei um ideal de vida?
Matilde terminou o vinho de uma única golpada.
- Amar só me trouxe angustia…
- Não sabia que já te tinhas apaixonado.
- Nunca to contei, como poderias saber? Nada sabes de mim, ousas pensar que me conheces no que me vês transparecer…
- Não preciso conhecer o teu passado para te conhecer a ti! Não vou postular nenhuma definição de amor, ou de como deverias viver a tua vida, mas nada podes fazer para me impedir de te amar, não fui eu que o escolhi, foste tu que me escolheste com essa magia que emana de teu corpo, com o que escondes por trás dessa pele gasta de inverdades.
- Vamos embora, acho que nada mais há a dizer.
Esperando silenciosamente que o elevador terminasse o seu percurso, Alberto formulava mil e uma tentativas de desculpa.
- Matilde, nada do que foi dito esta noite vai alterar…
E de súbito Matilde rasga o seu raciocínio com a avidez de um beijo.
Alberto queria eternizar aquele momento, encostando seu corpo ao de Matilde, fita seu rosto com o olhar, a sua pele quase se confundia no branco dos lençóis que emolduravam seus corpos. Matilde fecha os olhos e uma lágrima derrama sobre o rosto.
- Também te amo!
Alberto acorda, movido pela claridade que inundava o quarto. Nem sombra de Matilde, assustado pelo seu desaparecimento percorre com o olhar o quarto, em busca de um sinal de que ainda pudesse estar presente. Mas apenas encontrou um bilhete no lugar que outrora albergava seu corpo: - Não te atrases, 10 horas na sala de conferências!
Ali estava ela, vasculhando uma série de rascunhos. Será que os seus olhos o atraiçoavam ou Matilde estava particularmente bonita?
- Estás linda.
Alberto aproximou-se do rosto de Matilde para lhe dar um terno beijo, mas em vez de seus lábios sentiu o deslizar do vento causado pelo abrupto desviar de Matilde.
- Senta-te e começa organizar as tuas questões, o primeiro orador vem falar de um estudo efectuado sobre…
- Que se passa Matilde?
- Não te iludas com o que aconteceu a noite passada, bebemos demais, e dissemos demais!
Os olhos de Alberto cerraram-se tentando conter o desalento.
- Estavas a falar de um estudo sobre…?
Texto produzido para a fábrica de histórias

