Domingo, 31 de Outubro de 2010

Sem ti

(Imagem da Web)



Um sonho, uma vida - nós! Fomos palco de tentações e deambulações corpóreas. Foste, és - jamais seremos!

A noite avizinha-se longa, vislumbro teu rosto na água límpida da banheira. Brinco com a água, desenho movimentos de saudade e um suspiro - tu, de novo! Lembro o quanto a vida se tornara jogatana de principiantes em tuas mãos. Vejo teu espírito em tons de cinza - restos!

Desejei ser tua no momento da partida, imaginei o som estridente da arma disparada aquando o começo da corrida - agora contra o tempo. Desperdiçámos a corrida - uma vida!

Deixo-me banhar pela espuma e inspiro os vapores florais que banham a atmosfera que me rodeia. As paredes dispersam no vácuo do meu imaginário e vejo-me - revejo-te, ali, comigo!


Ao som de Samuel Barber vou esculpindo teu rosto na memória - nossa! Poderia pedir-te, implorar até, por uma nova oportunidade. Seria oportunidade ou desperdício - de tempo? Um talvez martela-me o consciente, impede-me de dormir - sonhar! Se ao menos um porquê existisse, talvez fosse possível seguir em frente - sem ti! Quero...preciso quebrar as correntes que me prendem ao "nós". Por favor, deixa-me seguir - sem ti!

Sei que o amanhã será apenas a continuação deste estado amorfo em que me encosto para não decidir - viver!

Pondero todos os contras e não, não te quero ver partir deste sonho. Será esse o problema? Querer como forma de curar-me - de ti? Abomino a possibilidade de ter de partilhar com outro alguém sonhos coloridos, sonhos que só faziam sentido - contigo! Destrói estas amarras - por mim!


Preciso...quero...viver-me - sem ti!

O dia em que te direi Amo-te III

(Imagem da Web)


Espreito – de longe! Alberto dormia um sono angelical. Paro, junto da porta do quarto, e fico, ali, a admira-lo como se fosse um quadro de aguarelas coloridas.

Sabia que a noite em Paris fora o inicio e o fim! Queria dizer a Alberto o quanto precisava dele, o quanto o seu abraço me aconchegava e me fazia sentir segura, mas algo me impedia de ser honesta com ele – comigo! A vontade de lhe dizer o quanto seu amor me preenchia explodia nas artérias, mas ao tentar verbalizar as emoções, acabava sempre por me limitar a beijá-lo. Apagava as palavras em sua boca – era tudo demasiado harmonioso! Para quê tornar uma obrigação o que se sente?

Os minutos de espera que provocava em meus amantes já não faziam sentido com Alberto. Mal surgia a oportunidade de estarmos juntos nem hesitava, desmarcava todo e qualquer tipo de compromisso para ir em seu encontro.

Uma garrafa de vinho, e eu, encostada na ombreira da porta a espera que o seu olhar me convidasse a passar a noite consigo. Estava particularmente feliz, queria festejar a alegria de um sucesso cirúrgico com o meu amigo, parceiro, amante – namorado!

- Matilde!
- Ui, que aconteceu? Eu, aqui com uma garrafa de vinho na mão, uma reserva fantástica, e a única coisa que sai da tua boca é o meu nome?
- Entra Matilde, temos de conversar.

Sabia perfeitamente o teor daquela conversa, sabia o que iria acontecer! A perfeição daquela noite acabara de se metamorfosear. Tomei consciência de que ao lado de Alberto o meu estado de espírito passava por vários estágios completamente aleatórios, sem uma ordem entendível ou sequer expectável. O que, de facto, não era de todo mau, mas sentir que não tinha controlo das minhas emoções ainda não era algo de fácil gestão.

- O que se passa Alberto?
- Porque vieste aqui esta noite?
- Bem, acho que é óbvio, vim comemorar o sucesso da cirurgia da paciente...
- Essa parte já tinha percebido. Porque vieste aqui esta noite?
- A redundância nunca foi uma característica tua, e para que não se torne um defeito, gostaria que reformulasses a pergunta sem ironias ou jogos de palavras.
- Porque é que preferiste vir comemorar comigo? Eu nem estive presente na cirurgia, estavam lá outros médicos. O Dr. Esteves também lá estava. Porquê comigo?
- Bem, não percebo o porquê deste alarido todo, pensei que te agradasse, só isso. Se queres que me declare e te diga que vim comemorar contigo porque és o homem da minha vida, estás enganado. Bom, e visto que não é do teu agrado a minha vinda, adeus!
- Quando visitas um amigo teu também apareces assim à porta de sua casa sem o avisar da tua chegada?
- Onde é que queres chegar?
- Não tens o direito de te insurgir na minha vida apenas quando te apetece Matilde. Já pensaste na hipótese de eu poder ter algo combinado com alguém, uma mulher, por ex.?

As suas palavras surgiram como um verdadeiro soco no estômago. Alberto, a espera de outra mulher? Podia imaginar qualquer tipo de cenário, mas a imagem de outra mulher na vida de Alberto…

- Desculpa, mas estou a espera de outra pessoa esta noite!

Saí frivolamente como se nada tivesse mudado. Desferi um sorriso e contemplei-o em gesto de apreciação para com os progressos que fazia na sua vida. Beijei-lhe o rosto, e doei a garrafa como forma de pedido de desculpa!

Em casa, ia deglutindo um vinho rasca que sobrara de um qualquer jantar de amigos. Seria o meu companheiro durante aquela noite.

O estado de embriaguez transportou-me para a minha infância. Eu e o meu Pai, um homem pujante e seguro. Lembrava agora os castelos de areia que fazíamos na praia. Naquela época o complexo de Electra já era bastante visível. Admirava-o, e ainda hoje era a figura masculina que representava maior perfeição no meu imaginário. Jamais seria capaz de enfrentar uma vida a dois com alguém que não possuísse a mesma determinação e fervor que o meu Pai.
Sorria enquanto as lágrimas me corriam pelo rosto – os risos, esses, iam-se tornando gargalhadas taciturnas enquanto vislumbrava os castelos esculpidos – perfeitos!
Não, Alberto não era o homem com quem queria viver o resto da minha vida, ele não era determinado, se fosse, se me amasse, se me quisesse, lutaria - por mim! As gargalhadas – sucumbiram! O choro – tristeza e angústia de quem não conseguia dizer “amo-te”! Perdia Alberto pela incapacidade de dizer a verdade – seria? Verdade ou ilusão? Era a questão que me assombrava sempre que pensava se era Alberto que amava ou imagem de alguém que me conhecia como ninguém, e me acompanhava, sempre – ao meu lado?

Acordo com uma sensação pesarosa, percorro o pensamento e relembro – ah, Alberto! Sinto a água lavar-me a alma, o corpo, estranho projecto cromossomático que retrata os anos passados, os desgostos – a solidão!

Ao pegar na carteira e na pasta, preparava-me para enfrentar mais um dia – o dia! Não queria ver Alberto, mas certamente iria vê-lo. Organizava um discurso que ocultasse o estado de espírito da noite anterior e…sorri!

- Vamos, hoje tirei o dia de folga.
Enquanto deslizava a cadeira de rodas ia contando as últimas novidades ao meu Pai. Sabia o quanto ele admirava o meu sucesso profissional. O seu olhar – vazio!
- Vamos construir castelos na areia? Assim, como fazíamos quando eu era criança.
Uma lágrima – minha!
- Amo-te!




Texto escrito para a Fábrica de Histórias

Segunda-feira, 25 de Outubro de 2010

A viagem

Desafio da semana para o Campeonato Nacional de Escrita Criativa:
Escolha uma personagem de um filme, livro ou telenovela e coloque-a a viajar ao seu lado num comboio. O que vai acontecer?




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(Imagem da Web)

O frio fazia-se sentir de modo desnudo, a pele por entre as roupas invernais respondia com profunda agonia. O som do ferro a deslizar pelas calhas entalhadas faz-me escorregar no assento, velho, impregnado de histórias, de viagens, emoções. Em busca de um lenço gasto tacteava o interior da bolsa. No chão, um caminhar lento, sinuoso, aproximava-se do pequeno espaço por mim ocupado anunciando que teria companhia durante a viagem – e como se o corpo se fosse desmaterializar, o rosto contorcia-se juntamente com o entoar repugnante dos meus despojos doentios no lenço amarfanhado. Abro os olhos e vejo um jornal aberto a minha frente.

Desejei ter terminado a viagem de modo a nunca ter reconhecido o rosto que se escondia por trás daquele jornal – era tarde! Reconhecera-lhe o olhar enigmático, somente o vira numa ou noutra notícia de jornal, mas a sua fama perseguia-o. Senti um calafrio percorrer-me a espinha. O corpo, imóvel – era ele! Cada ruga vincava em seu rosto uma “doce amargura”, um crime, um roubo – de mais uma vida! Será que faria de mim sua vítima? Controlar-me-ia com a mesma sagacidade com que controlava outros inocentes? Um ligeiro rubor alastrou em minhas faces, ainda imóveis, inexpressivas, mas o olhar, esse sim, denunciou-me! Senti-me ser engolida num vácuo desconcertante criado pela ausência de palavras…

Um sorriso - meu deus, sou sua presa!

- A menina sente-se bem?

Ele dirigiu-se a mim, era o meu fim! A morbidez embutida naquela voz monocórdica exalava uma presença demoníaca, pronta a dilacerar a minha pele!
Revi toda a minha vida em breves segundos – jamais chegaria ao meu emprego – podia imaginar as minhas vísceras empaladas como troféu no cabedal que albergava meu corpo.

Acenei com a cabeça em sinal de resposta. Será que se daria por satisfeito ou iria querer mais de mim? Hannibal the cannibal, famoso pela sua astuta sabedoria. Teria eu um aspecto “saboroso”? O seu olhar parecia alimentar-se do meu medo! Oh meu Deus…meus pensamentos coagulavam, sentia cada sinapse em resposta do turbilhão de emoções que me avassalavam…

O dilatar do meu pavor parecia diverti-lo!

Segui-o com o olhar para me assegurar que saía do comboio – um traço de alívio! O seu olhar incrustante seguia-me, absorto, do lado de fora!

O jornal, deixado em cima do acento, exibia em letras gordas: - “Hannibal faz outra vítima, Lucinda de 23 anos, deixada no comboio onde viajava…”
Texto escrito para o Campeonato Nacional de Escrita Criativa

Terça-feira, 19 de Outubro de 2010

Conversas de elevador

Imaginem o Super-Homem e o Jorge Palma fechados, no mesmo elevador. Pois é, não foi tarefa fácil! Mas foi isto que nasceu após horas a formular possíveis diálogos. Foi esta a minha tarefa semanal para o Concurso Nacional de Escrita Criativa.
Espero que gostem.



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(Imagem da Web)

- Mas tu hoje tiraste folga?
Dobrando a perna em jeito rufia, o Super-Homem finge não ouvir Jorge Palma.
- Estamos aqui fechados a horas e tu não fazes nada?
- Não estás em perigo pois não? Que eu saiba o meu dever seria salvar-te em caso de estares em perigo, o que não é o caso.
O rosto de Palma ia tomando uma feição meio perplexa, meio exasperada!
- Tens em tua posse a capacidade de nos tirar a ambos deste elevador diminuto e bafiento e não o fazes porque não faz parte das tuas competências?
- Sabias que existem pessoas que são pagas para resolverem situações como esta? Não só és um egoísta, como te esqueces de como a minha acção pode influenciar a vida de outras pessoas.
- Moralismos a uma hora destas…
- Pessoas como tu, que facilmente se habituaram ao peso da fama para manipularem a conjuntura onde estão inseridos, é que vão transformando este mundo num sítio enfermo, um sítio onde a ganância e a imodéstia são motivos suficientes para que se cometam atitudes grotescas e mordazes em nome de propensos actos de auto realização, auto satisfação…
- Bem, eu só queria sair do elevador, desculpa lá! Não se fala mais nisso.
- Diz-me Palma, o que tens tu de urgente para fazer que não possa ser adiado pela espera do homem responsável pela manutenção do elevador?
- Poderia dizer-te que recebi um bilhete de uma fã que pediu para me ver antes que sua morte chegue lenta e silenciosa, uma mulher cuja alegria lhe fora roubada por uma doença que chega sem aviso prévio! Essa mulher que se encontra entre a vida e a morte pediu-me, a MIM, uma pessoa cheia do peso da fama e que tenta manipular a conjuntura onde está inserida! Mas acho que agora é irrelevante o que me leva a querer sair deste elevador. Sei que me interpretas pelas manchetes de jornal, mas assim como não gostas de ser visto como um objecto útil e prático na mão humana, eu também não gosto de ser julgado pelos rabiscos editoriais que vão moldando e tornando idiossincráticas as opiniões sobre mim!
O som estridente da campainha do elevador torna mudos seus discursos e ambos fingem não ter participado naquele teatro não ensaiado!

Sábado, 16 de Outubro de 2010

Medo de sentir

Descubro meu rosto amarfanhado pelo suave afagar dos lençóis. A luz que espreitava pela orla da janela convida-me a deslizar para fora da cama, mas o corpo calaceava envolto numa sedução harmoniosa entre querer ficar e ter de sair! Era sábado e nada indicava que houvesse um motivo relevante para que tivesse de abdicar daquele prazer semanal.

Obrigando o corpo a dormitar acordado, ouço a campainha abalroar-me os sentidos tornando meus membros hirtos pela ira que me atravessava as veias! Ponderei a hipótese de ignorar a insurreição cometida para com o meu ritual delicioso, mas de novo aquele som estridente, e de novo…teria de me levantar e verificar o autor de tal crueldade!

- Mas tu ainda estás de pijama? Como é que é possível?
Tiago, um amigo, namorado, amante…Tiago e eu tínhamos uma relação de carácter indefinido.
- Mas que raio te deu hoje, nunca vens a minha casa sem me avisar?
- É necessário avisar?
Revirando os olhos tento não prosseguir com as palavras, que decerto iriam revelar a minha insatisfação pelo romper do meu sossego. Deslizo-me insatisfeita para o sofá enquanto Tiago me seguia.
- Vá lá, muda-me essa cara, até parece que é um suplício a minha presença.
- Tiago, desculpa, não fiz por mal, mas depois de uma semana extenuante sabia-me bem ter um dia de sossego, um dia sem preocupações com horários e obrigações.
- Eu sou uma obrigação?
Soltei um sorriso inofensivo, jamais imaginaria Tiago subjugar-se com tal interrogação, era um homem demasiado seguro que nunca havia demonstrado qualquer tipo de preocupação com esse tipo de questões.
- Agora mais parecias meu namorado, chateado e a fazer beicinho.
Tiago, terminou aquela conversa com uma carícia terna em meu rosto. Quase me senti “ronronar” de satisfação, a sua mão aveludada convidou-me a enlaçar meu corpo em seus braços. Permaneci imóvel deliciando-me com suas carícias.

- Hoje quando abri a janela e vi a chuva miúda envolver o céu cinzento, meu pensamento foi assaltado de uma vontade desmedida em te ter em meus braços.
Respondi com um sorriso e um beijo de desculpa pela minha atitude rude.

Abraçámo-nos com uma sede de carinho que rapidamente se transformou em desejo. Senti as alças de cetim deslizarem em meus ombros, a sua mão firme segurando-me o corpo fez com que me desligasse da realidade. O ar quente que saía da sua boca desenhava caminhos em torno da minha pele, fecho os olhos e deixo-me envolver numa dança não ensaiada, sem repetições de movimentos, sem passos rotineiros, como se fosse a primeira vez que nossos corpos se tocavam.

Lá fora a chuva tornara-se violenta, quase ao ritmo de nossos corpos que deslumbravam na escuridão do quarto apagado. Apenas podia ver o contorno do seu rosto através do luar que se permitiu entrar pela janela, enquanto perdíamos a noção do tempo, do espaço…

- Já é de noite…
Rimo-nos de nós mesmos, do simples facto de nos termos perdido nas horas, o organismo negara-se a revelar as necessidades básicas de um ser humano, fome, sede, sono …havíamos passado todo o dia a vaguear no corpo um do outro.

Sem pronunciar uma palavra que fosse, tentávamos comer um qualquer resto de jantar que fora guardado no frigorífico. Sentíamos um constrangimento misterioso que não sabíamos interpretar. Penetrámos no olhar um do outro em busca de uma resposta sem saber qual a pergunta que nos arrebatava a mente. Havia romance no simples colocar do prato na máquina de lavar.

Nunca nos limitámos a um compromisso, ambos havíamos concordado em não exigir nada um do outro, não perguntar, não interpretar…nunca havia pensado na remota possibilidade de um dia existir mais do que desejo físico entre nós.

- Posso ficar cá esta noite?
- O que é que se está a passar?
- O óbvio…somos homem e mulher, e corremos o risco de nos apaixonarmos desde o primeiro momento em que nos envolvemos.
- E porque é que isso nunca aconteceu antes?
- Tem de existir uma explicação?
- Acho melhor não passares cá a noite.

As horas passavam e Morpheu parecia ter-me abandonado numa noite em que eu não queria pensar. A solução para muitos dos meus problemas era um simples virar de costas, porque é que eu não conseguia fazer o mesmo naquele momento? Aquela casa que parecia cheia de sossego pela manha, estava agora a murmurar a solidão que se tinha instalado quando Tiago a abandonou.

- Que fazes aqui a esta hora da madrugada?
- Tiago, eu…eu…
Tiago fitava-me com o olhar enquanto a chuva me abalroava o pensamento, o cabelo escorregava em meu rosto, a roupa esticara-se com o peso da água. Abracei-me curvando o corpo que se contorcia de frio e me impedia de olhar fixamente para Tiago. Mas em vez um convite para entrar, Tiago braçou-me debaixo da chuva. Queria eternizar aquele momento, declarámo-nos com um beijo e abdicámos das palavras que nada significariam perto do que sentíamos!







Texto produzido para a fábrica de histórias

Quinta-feira, 14 de Outubro de 2010

O dia mais entediante da minha vida

(Imagem da web)

Uma estranha insensatez leva-me a deslocar este meu corpo enfadado ao maior dos túmulos sociais, as finanças! Crente de que seria a escolha acertada, encontro-me no meio de um trânsito colossal, penetrando no som das buzinas lamurientas a fim de descortinar um lugarzinho confortável que me escondesse do sol encalorado que se fazia sentir! Era o último dia para prestar contas dos meus humildes, para não dizer imorais, ganhos anuais! Mas já que as finanças fechariam cedo, decerto não iria ficar ali por muito tempo.

Para começar a tarde em beleza avistei uma turba de cauda inclinada para as ruas paralelas, mal conseguia distinguir o fim da fila de gente que roçava as paredes dos prédios em busca de uma sombra! Aquela imagem de holocausto instalado imobilizou meus passos! Deambulei na tentativa de que o meu raciocínio lógico me revelasse uma solução, mas foi em vão. Submeti-me à espera, que parecia infindável, na esperança de resolver as minhas obrigações fiscais.

O calor parecia não dar tréguas, e a escolha de umas sandálias de salto alto leva-me a um castigo tão mental como físico, começara a sentir os pés gritarem por entre as fitas que tanto idolatrei na montra da loja!

Ao chegar perto das portas que estremeciam pela luta do povo que desesperava por entrar dentro do edifício deliciosamente guarnecido de aparelhos de ar condicionado, começo a sentir o frenesim dos últimos minutos de espera desconcertante.

- Desculpe, mas vai ter de comprar outro boletim, preencheu os valores dos encargos de seguro no sítio errado.
Será que a mais bela invenção chamada corrector não serviria?
O meu rosto já não conseguia disfarçar o tédio acumulado por horas de espera.

Ao sair do edifício claustrofóbico que me bania de desfrutar de um dia de sol dirijo-me sofregamente ao meu carro, que por sinal, ostentava um autocolante gigante anunciando que o meu carro fora trancado pela polícia.

O fim daquele dia parecia tudo menos eminente!

Já em casa, derrubo meu corpo em direcção ao tão desejado sofá, mas com grande espanto e conseguindo romper por instantes o tédio instalado, sinto uma cólera avassaladora ao verificar que as pilhas do comando do televisor estavam também elas entediadas! Não podendo desfrutar do meu belo passatempo de zaping, procuro um livro e adormeço de tédio!
Texto escrito para o Campeonato Nacional de Escrita Criativa

Quinta-feira, 7 de Outubro de 2010

Sei o que não fizeste o verão passado

(Imagem da Web)


Após atribuladas aventuras, impregnadas de uma gigantesca carga emocional, ali se encontram, três amigas com muito e, ao mesmo tempo, nada em comum! Três mulheres crescidas e educadas em contextos sociais, familiares e até religiosos, completamente díspares, mas com uma situação comum a todas, o verão que não chegaram a sentir.
Bem, vou tentar enquadrar o que acabo de dizer.
Era uma vez, um grupo de três amigas, vindas de lado nenhum, com um sonho comum, serem as melhores na conquista de um objectivo quase raro de alcançar. Imaginem que anseiam tanto conquistar o lugar num pódio que sabem a partida que só os melhores dos melhores conseguem atingir, não é bem a semelhança com um Óscar, antes sim com o que se sonhara ser o melhor emprego do mundo, não por ser altamente remunerado, nem pelo seu pseudo-estatuto social, mas sim pela néscia credulidade de que não se imaginariam a vestir outra camisola que não fosse aquela.
Três mulheres, tão diferentes que ousaram sonhar serem capazes de alcançar esse sonho. O problema começa com a falta de aviso prévio sobre o alto preço a pagar por se lutar tanto por esse sonho!
Enfim, ainda assim, o preço parecia algo de que estariam dispostas, o sofrimento de meses era algo justificável, se assim teria de ser, então que se arregacem as mangas e sem olhar para trás, estas três mulheres abdicaram de “viver” durante nove meses, sonhando com o dia da recompensa.
Eis senão quando, no momento da devida recompensa, alguém de muito mau gosto esfrega as mãos e diz que tudo o que andaram a fazer durante nove meses não chega, aliás, fora muito pouco ou quase nada, e sem tempo para um pestanejar, estas três mulheres de bocas entreabertas caem de rabo no chão e desistem de pensar! Pensar em quê? Fora-lhes roubada a alegria, a vontade, a liberdade! Não conseguiam imaginar como, onde e quando se poderiam ter esforçado mais.
Ora, feitas as contas, quando uma pessoa neste tipo de busca incessante dorme pouco mais de cinco horas por noite, o que alguns chamam de fim de semana, estas três mulheres chamavam de miragem, e até para se respirar mais ofegantemente após o cansaço físico era calculado o tempo despendido…bom, onde é que estas mulheres se poderiam ter esforçado mais?
BAJULAÇÃO!!! Eureka, era isso que faltava. Bolas! Como foram deixar escapar algo desse género? Já lhes tinha sido ensinado a algum tempo atrás o significado do termo, mas nunca levaram o assunto muito a sério, aliás, falara-se tanto sobre o assunto que era algo demasiado banal, tão banal que não acharam ser assim tão importante! Toma lá que é para aprenderes, quando se ensina alguma coisa num instituto de carácter superior é para ser levado a sério!
Bom, feitas as contas, alguém achou por bem mantê-las a lutar mais um pouquinho, mas já não havia volta a dar, teriam de lutar sem a Bajulação, como nunca haviam lidado com o conceito, não sentiram que lhes fosse fazer assim tanta falta!
Eram mulheres de coragem, voltaram a arregaçar as mangas, e dispostas a pagar um novo preço, fizeram cálculos mentais e decidiram arriscar, afinal, o que poderiam perder mais após tantos sacrifícios? O Verão!
Ali estavam, três mulheres a quem era dito dia após dia que não iriam conseguir, que era um erro a sua permanência, que não se esforçaram e continuavam a não se esforçar! Conseguem imaginar o ar estupefacto de uma criança de três anos quando lhes dizemos que não podem comer chocolate, quando se tem uma tablete gigantesca a tatuar-nos os cantos da boca? Assim, pareciam estas três mulheres, a observarem a crueldade tatuada na boca de toda a gente, que nem sequer as conheciam, não as acompanharam! Eram apenas artigos de cenário que iam entrando numa peça gravada. Gravada por alguém com um sentido de maldade bastante refinado!

Crueldade vs Esforço

Ding, ding, ding, ding, ding

“E agora, senhoras e senhores, caros espectadores, após meses de tortura, conseguimos eliminar dois dos elementos que mantivemos sob cárcere durante um verão inteiro!”

Foi assim que soou aos ouvidos de duas das amigas a notícia de que todo o seu esforço tinha sido em vão, e que nada nem ninguém acreditara nelas! Seriam eliminadas!

As lágrimas eram inevitáveis, o desalento dominava os movimentos deambulantes destas duas mulheres que se viam na eminência de uma vida sem emprego, com um ano de vida desperdiçado entre um par de muralhas lúgubres, mas se havia algo que tinham ganho com todo o seu esforço, era a capacidade de reagir! Das três, duas teriam que se desenvencilhar, teriam de reunir o resto das suas sobrantes forças para contrariarem o que parecia ser uma decisão definitiva!

E quando se pensava que ninguém acreditaria nelas e nas injustiças de que tinham sido alvo, dirigiram-se em passos trémulos ao chefe máximo, nada tinham a perder, mas necessitavam de esclarecer toda aquela situação, era uma questão de honra!

Um verão de descanso fora-lhes roubado, e com ele a alegria! A verdade fora reposta, embora certas marcas não possam ser apagadas da memória!
Contudo, desistir é a assinatura dos cobardes!
História fictícia produzida para a fábrica de histórias