Segunda-feira, 29 de Novembro de 2010

A verdade

Desafio semanal do Campeonato Nacional de Escrita Criativa:
Escreva uma história sobre infidelidade, em que o personagem principal seja um enfermeiro, uma caixa de cartão seja o objecto-chave e tudo se passe numa cela de prisão.

Este desafio não foi nada fácil, já havia escrito outrora sobre traição e tive muito cuidado para não incorrer em repetições. Espero que gostem, e que não se revejam nesta história tão triste, mas infelizmente demasiado comum!

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(Imagem da Web)


Pedro delirava com ínfima possibilidade de Ana o trair. Vivia atormentado – obcecado! Pedro era enfermeiro por mero acaso, mas agradecia a Deus todos os dias pelo acaso que o fez tropeçar em Ana. Ana definhava numa dor acutilante quando Pedro teve de a colocar a soro. Pedro era incapaz de esquecer o verde do seu olhar, desejava toma-la em seus braços – para sempre.

Casados a pouco mais de dois anos viviam uma vida rotineira, comum a qualquer casal. Mas Pedro parecia conjecturar sobre todas as acções e reacções de Ana. Uma ida ao supermercado era motivo de um questionário incessante.

Um dia, igual a tantos outros, saíra do trabalho e dirigira-se a casa, mas desta vez, obstinado – torturado - com o que vira.

- Quem era o homem com quem estiveste a beber café esta tarde?
- Pedro, não sei do que estás a falar.
- Eu vi Ana, não me mintas!
- Pedro, estás a fazer uma tempestade num copo de água!
- Como te atreves a trair-me, como? Eu amo-te tanto!

Ana sentia-se aglutinar em tristeza. Sem forças para reagir ao confronto de Pedro, dirige-se à porta da rua onde achava poder encontrar alguma paz, e sem que pudesse erguer um braço para fora do claustrofóbico apartamento sentiu uma força lança-la contra o chão.

Era apenas mais um dia, outro de muitos que ainda teria de viver encastrado naquela prisão bafienta. Pedro fora condenado por homicídio qualificado. O ciúme havia tomado conta de Pedro e este cometera a pior das atrocidades.

A condenação a que Pedro se submetera era ainda mais dolorosa que a dos tribunais. Pedro não arremessou apenas com a sua liberdade para dentro de uma cela, aniquilou a possibilidade de voltar a ver o sorriso de Ana.

- Tem uma visita, siga-me!
- Visita? De quem? - Pensou

A mãe de Ana mal se continha de raiva, desprezo, ÓDIO, um rol de emoções incontroláveis.

- Está aqui seu verme, está aqui o motivo porque ela estava a beber café naquela tarde!

Uma pequena caixa de cartão que albergava o motivo – secreto.
O olhar de Pedro obscurecera com a caixa – aberta!

- Uma…uma…colecção de selos. - Debruçado sobre as pernas desata num choro atroz.
- Nãooooooooooooooo! – Um grito capaz de esganar o silêncio.

Uma surpresa, uma colecção muito valiosa, encomendada, para acrescentar à colecção de Pedro. Uma verdade – a verdade!

Texto escrito para o Campeonato Nacional de Escrita Criativa

Segunda-feira, 22 de Novembro de 2010

Tempo de mudar

Desafio semanal do Campeonato Nacional de Escrita Criativa:
Escolha 3 provérbios. Agora escreva um texto em que use um no começo, um no meio e um outro no fecho do texto.

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(Imagem da Web)


- “Mãos frias, coração quente, amor para sempre.”
Dizia a mãe de Maria que a encontrara deambulando em memórias; desgostos. Sentando-se na beira da cama segura suas mãos em sinal de ternura.
- E onde anda esse amor?
- No momento certo saberás onde ele está.
- Sempre no momento certo mãe, é o que todos me dizem. Eu já tive esse amor, acabou, não há mais amor, em lado nenhum, a minha espera.
- Que tolice é essa Maria? Quando é que deixas para trás esse verme que tanto te fez sofrer?
- Ele não é um verme mãe. Eu é que não o merecia.
Maria, no seu estado latente de profunda tristeza e autocomisseração, transborda num choro agoniante. Desliza pela cama e aconchega-se no regaço de sua mãe negando uma palavra de conforto.
- Deixa-me só, por favor!
Encostada ao vazio, Maria parecia definhar a cada segundo, o silêncio – esse – que a confortava e lhe trazia uma pseudo paz de espírito começava agora a metamorfosear. Pior que a solidão era o barulho do eco, o eco do vazio. As paredes ressoavam sons, vozes.
- Estou a ficar louca?
- “Não há luar como o de Janeiro nem amor como o primeiro.”
- Quem és tu?
- Conheces-me e não me vês, mas existo porque tu existes.
- Que loucura é esta, quem és e porque falas comigo?
- Questões banais que de nada te servirão enquanto não olhares para o âmago dos problemas que te afligem.
- Eu só queria tê-lo de volta. Será assim tão difícil aceitarem essa realidade?
- O que tu queres não é uma solução, é uma vontade de reaver o que pensas te ter sido “roubado”.
- E não foi?
- Não julgues o ser humano como algo adquirível. Continuas e continuarás a ser a mesma pessoa com ou sem “ele”.
- Isso não é verdade.
- Conquistaste experiência. Mais nada. Aprende a amar-te em primeiro lugar.
- Mas quem és tu afinal?
- O teu melhor conselheiro, o Tempo!

- Maria, acorda!
- Hmmm, que se passa mãe?
- Estavas a chorar meu amor, fiquei assustada.
- Estava?
- Sim. Meu anjo, sai dessa cama e vai dar um passeio, tens de acabar com essa tristeza.
Numa desenvoltura tranquila arremessa os cobertores e esboça um sorriso ténue.
- Tens razão mãe. “Águas passadas não movem moinhos!”

Segunda-feira, 15 de Novembro de 2010

O sonho

Desafio semanal do Campeonato Nacional de Escrita Criativa:
Dois adolescentes conhecem-se no primeiro dia de aulas. Um deles tem um livro escrito. O outro tem como sonho ser escritor. O que vai acontecer?


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(Imagem da Web)




Era cedo e raiavam restos de um sol de verão findado. Era um dia antagónico para muitos adolescentes – início e fim! Início de mais um ano lectivo, e o fim; de sôfregas aventuras. Dias inteiros ao sabor do nada que os ligava à liberdade de fazerem o quisessem. Mas não para Lucinda. O sorriso moldava-lhe o rosto na liberdade que experimentava, sentada no autocarro, de regresso ao seu mundo – os livros. Lucinda, menina dócil e de poucas palavras. O cabelo escorrido afagava-lhe o rosto e escondia a imagem de uns óculos meio desproporcionais. Tímida, percorre os corredores deliciando-se com os cheiros; os mesmos. O regresso parecia deixa-la extasiada, mas a timidez impedia-lhe de rejubilar para o exterior.
- Oh, desculpa, eu não vi que…
Ao tropeçar num rapaz que nunca tinha visto naquela escola assola-se de mil desculpas tentando resgatar do chão cada folhinha do seu caderno sagrado.
- Posso ver o que tens aí escrito?
O rosto de Lucinda transformara-se por completo; medo, vergonha.
- Dá-me isso, é meu!
Ela saltitava no desespero de recuperar o seu bem mais precioso, as suas palavras; gravadas em folhinhas de papel na esperança de um dia ter coragem de permitir que alguém as lesse em voz alta.
- Para quieta! Se me deixares ler só uma das folhinhas eu prometo que te entrego todas.
O silêncio envolvido naquele momento nauseante para Lucinda parecia não ter fim. Ele iria descobrir o seu segredo, era o momento mais agoniante que vivia na sua tenra idade.
- Como te chamas?
- Já leste tudo? Podes dar-me?
- Só depois de me responderes.
- Lucinda, agora devolve-me o que é meu.
Ele sorriu para ela com uma certa doçura.
- Por favor, devolve-me – o choro era iminente.
- Prazer, sou o Duarte. Escreves muito bem Lucinda, não devias sentir vergonha em mostrar textos tão bonitos.
- Agora já me podes devolver as folhas? Por favor!
Duarte retira da sua mochila uma pasta farta e entrega-a juntamente com as folhas.
- Quero compensar-te por este momento penoso. Eu também gosto muito de escrever, e este é o meu livro que está prestes a ser editado. És a primeira pessoa a quem ofereço um exemplar. Se quiseres, posso entregar as tuas folhinhas às pessoas certas.
Lucinda balbucia umas palavras inaudíveis e agradece no seu jeito tímido.
De sorriso rasgado segue pelos corredores. – Será que devo?
Texto escrito para o Campeonato Nacional de Escrita Criativa

Segunda-feira, 8 de Novembro de 2010

Delírio

Desafio semanal do Campeonato Nacional de Escrita Criativa:
Imagine que é uma corda que está quase a rebentar. O que sente e pensa neste momento?


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(Imagem da Web)


Presa a dois lados – de quem? Segura? Sinto o corpo rasgar, lenta e cruelmente. O silêncio tolhe-me o pensamento. PAREM DE PUXAR! Estou quase; ninguém parece estar presente e no entanto…quem me puxa? Dor, angústia – porquê? As fibras deslizam sinuosamente; anunciam – vou rebentar! Agora? Quando? Estou prestes a ceder; primeiro à loucura e depois às leis da física. Irei quebrar, sim - talvez, se eu quiser, o “quando” dependerá de mim - será que quero? Preciso? Continuo em interrogações meramente existencialistas de quem nem sequer tem coragem de decidir se “quer”. Querer ser firme - imprudência ou sensatez? Vejo rostos – de mim – emergindo nos fios do meu corpo; gritam, imploram clemência, mostram-me – o que fui, o que poderei vir a ser. Delírio? Em breves momentos nada do que fui será projectado no que poderia vir a ser; cairei – em profundo esquecimento. Ah…talvez seja melhor assim. Estou prestes a quebrar, quem vai querer uma velha corda prestes a ceder? Se quebrar, antes do esperado – serei lembrada? Antes do esperado, sim, antes do esperado! Ainda exultante, relembro; será que quero? Se ao menos parassem de me puxar; não consigo pensar, não quero pensar! Serão desculpas? Para não pensar? O mais certo será deixar-me quebrar – no tempo esperado! Lembranças para quê? Para quem? Sinto a tracção cada vez mais forte, o corpo, esse, prestes a ceder! Será que sabem? Meu Deus, estou a sofrer sozinha, ao abandono. Só se lembrarão de mim quando a minha falta incomodar! É isso, o incómodo da ausência; mas apenas porque deixarei de ser útil. A incapacidade de agir faz-me ceder; mais um pouco, mais um fio – quebrado! O silêncio torna-se ensurdecedor, acutilante – estou a enlouquecer! O melhor é quebrar – já! Para quê deambulações? Ninguém parece querer importar-se. Estou completamente sozinha e ninguém sabe que estou prestes a quebrar! Sozinha e prestes a quebrar – vale a pena ficar a sofrer? Até quando? Por quem? Por mim? Deixar-me ficar, a sofrer, por alguém, não será, decerto, a melhor solução! Se ficar, se lutar, será – por mim! Por isso fico, aqui, só mais um pouco, talvez o sofrimento me valha, mas só por mim! Mais um fio – solto! Mas eu sei, sinto – vou ficar; por mim! Até quando – não sei! Não preciso saber! Quero apenas sentir-me, lutar – até ao fim!
Texto escrito para o Campeonato Nacional de Escrita Criativa

Segunda-feira, 1 de Novembro de 2010

O reboliço

Desafio semanal do Campeonato Nacional de Escrita Criativa:

Um jogador profissional de futebol, um famoso escritor e um professor de educação física estão num museu quando, de repente, se ouve o barulho de um vidro a partir com muita força. Um dos quadros mais valiosos está completamente estragado. O que acontece de seguida?

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(Imagem da Web)



Três homens sozinhos num museu. Escritor, jogador de futebol e um anónimo professor de educação física. – “Hoje em dia qualquer um é escritor.” (diz o jogador para a anónima figura que se apresentava ao seu lado – o professor de educação física. O professor, olhando de soslaio para o jogador sentiu-se assombrado pela imagem do que um dia fora, e estava prestes a divagar no ciúme quando de um assalto único se ouve um estrondo ensurdecedor. Viam-se vidros de formas irregulares espalhados pelo chão mármore – partidos? De olhar inquiridor – quem? As três almas sentiram-se preencher de dúvidas e de uma ansiedade de causa desconhecida, quando num ápice negras sombras invadiram o espaço ocupado pelas mais belas, caras e raras obras de arte – pessoas? Gente de fatos escuros em jeito de filme Kung-fu corriam de forma ordeira em direcção a um alvo – qual? – “Isto é um assalto!” – “Não me digas génio, quanto tempo levaste a decifrar tal coisa?”O confronto entre jogador e professor estava prestes a denunciar a presença destes quando de súbito se ouve o escritor: - “Shiuu! Vocês querem ir desta para melhor?”Encolhidos atrás de um pilar iam murmurando discórdias e exalando ódios pessoais. O Monet – fora mutilado pelos vidros acutilantes que sobrevoaram em direcção à tela aquando da explosão que deu origem ao reboliço. A origem – a tela! Agora deformada pelos erros de cálculo de puros principiantes na arte de invasão de museus. O escritor riu-se – sozinho! Arte de invasão para roubar uma obra de arte! Era a ironia mais hilariante a que se tornara testemunha! – “Pára de rir, queres que nos cortem a goela?”- O professor começava a transparecer os primeiros sinais de fraqueza. E eis quando uma das vestes negras se aproxima do famoso escritor e o observa, por instantes, encolhido atrás do pilar. O olhar taciturno daquele homem de negro começava a atemorizar o pobre escritor que se via prestes a passar pela pior situação da sua vida – o resgate! – “Esperem, eu conheço pessoas capazes de restaurar a tela...” Sem quadro a solução mais viável foi levar o pobre escritor. – “Mas porquê levar o escritor?” (pergunta o jogador) - “Ai que burro pah!”Enleando-se numa sessão de pancadaria são abordados pelos guardas: - “Não está a perceber, não fomos nós que fizemos isto...”

Texto escrito para o Campeonato Nacional de Escrita Criativa