Terça-feira, 28 de Dezembro de 2010

Reflexo

Ultimo desafio do Campeonato Nacional de Escrita Criativa:
Um homem recebe, de herança, uma casa perdida numa pequena aldeia em Trás-os-Montes. Quando vai, acompanhado de um amigo, visitá-la pela primeira vez encontra um espelho com mais de cem anos - e que não tem, sequer, um arranhão. O que vai acontecer?



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(Imagem da Web)




Fernando, ainda demasiado aturdido com o funeral, evita o contacto com os restantes familiares que ali se encontravam a idolatrar a desgraça alheia.

- Filho, o testamento do teu avô vai ser lido amanhã, por favor não faltes.
Um beijo terno e Fernando segue em direcção ao carro, onde permanece durante horas na tentativa de esvaziar o pensamento.

Ainda incrédulo com a revelação de uma herança, indaga junto de sua mãe, em murmúrio, que propriedade era aquela que acabara de herdar.
- Não sei filho, o teu avô nunca nos falou de nenhuma propriedade para aqueles lados.

Sem qualquer vontade para fazer uma viagem tão longa sozinho, Fernando aceita a companhia de Eduardo que se voluntaria prontamente ao aperceber-se do abalo emocional do amigo.

Fernando, enquanto percorria o olhar pelos montes prateados, ia divagando em memórias na tentativa de perceber como seria possível o avô esconder-lhe que tinha aquela casa.

- Minha nossa, será que existe civilização para estes lados?
- Não sei Eduardo, mas cada vez acho isto tudo mais estranho.
- Nem o Gps reconhece este sítio.

O pó sedimentara por todo o lado mas eram visíveis os lençóis que ocultavam os contornos de uma casa farta de mobília.

- Bom, vamos lá destapar os móveis, quase me sinto numa casa assombrada.
Desatam ambos às gargalhadas quando se tomam de um susto atroz provocado pelo ressoar das badaladas do que mais parecia o sino de uma igreja, a única diferença é que o som ecoava no interior da casa.
- Mas que estrondo foi este?
- Eu sei lá, um relógio qualquer escondido no meio dos panos.

Ainda consternados decidem continuar a desnudar o resto dos móveis. Num movimento lento, Fernando descobre um espelho enorme em estilo rústico, definitivamente feito em talha. Assombrado pelo aspecto aparentemente novo, sentiu-se paralisar em frente do mesmo. A imagem reflectida era sua, certamente, mas uma sensação ignota transporta-o para um mundo que não era o seu, vislumbrando cenários totalmente arrepiantes. Viu seu rosto emergir de um outro, desconhecido, aparentemente da mesma idade e sentiu um calafrio percorrer-lhe o corpo.

- Que se passa contigo?
- Ele sofreu tanto…
- Ele? O pó infiltrou-se no teu miolo, só pode.
Um silêncio percorreu o espaço durante vários minutos.
- Já vi o que tinha a ver. Podes voltar a tapar os móveis.
- Mas que raio viste tu naquele espelho.
- O meu reflexo!




Texto escrito para o Campeonato Nacional de Escrita Criativa

Segunda-feira, 20 de Dezembro de 2010

Viver no cinzento

Desafio semanal do Campeonato Nacional de Escrita Criativa:
Joana é uma mulher de 35 anos que vive para receber a apreciação dos outros e que é terrivelmente pouco confiante em si mesma. Escreva sobre ela.



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(Imagem da Web)



Vacilando entre prédios cheios de olhares rotineiros de quem ali passa, Joana toma o rumo, o mesmo de sempre. Era um dia, mais um, em que os ponteiros do relógio lhe mostravam a velocidade do tempo que a atropelava na maciez dos seus passos, cada vez mais cansados – de si mesma!

Viajava a cada instante na imensidão do seu imaginário, fingindo-se feliz na encenação que fazia de sua vida. Mas a frustração seria, de novo, erguida pelo ressoar constante da alegria alheia, da qual nunca tomara parte. Sentia-se invisível, um nada no meio da multidão e uma imensidão na solidão da sua vida.

À medida que os anos voavam Joana impedia-se de deixar o romance entrar em sua vida. Amar era algo que via descrito em folhas de venda barata pelas livrarias, o resto considerava ser mera utopia. Amar significaria renuncias, sacrifícios – de quê? Joana nada tinha a não ser uma vida vulgar, recheada de todas as vulgaridades possíveis e que decerto não suscitariam o mais leve interesse a um homem minimamente interessante.

Cambaleando de uma pressa que a fizera tropeçar no final das escadas do prédio vai de encontro a um vulto gigante. A primeira coisa que avistara fora uns Prada elegantíssimos mesmo em frente das suas vulgares botas de cano alto compradas numa loja em liquidação.

- Peço imensa desculpa…

O ar gelara a ponto de eternizar aquele momento quase em jeito de um filme Tarantiniano!

- A Sr.ª sente-se bem? Está aí parada a olhar para mim, sou assim tão assustador a ponto de fazê-la perder a fala?
Solta-se um riso trémulo e Joana refaz-se da surpresa que lhe tomara conta dos sentidos, e do seu imaginário viajante.
- Nada disso, peço imensa desculpa por tê-lo abalroado desta maneira.
Desviando-se daquele porte sedutor, Joana tenciona seguir com a sua rotina programada.
- Permita-me que a convide a tomar um café, presumo que o facto de vir a descer as escadas signifique que mora no prédio. Sou o seu novo vizinho.
Um convite, beber café, um homem – sedutor!

- Engraçado como ainda não me perguntou a idade, o que faço…
- De vulgaridades está o mundo cheio. A mim interessa-me descobrir o porquê de um sorriso, de um suspiro, de uma lágrima – sua. A mim, interessa-me descobri-la, não encobri-la com as verdades que criou em seu redor.
Texto escrito para o Campeonato Nacional de Escrita Criativa

Terça-feira, 14 de Dezembro de 2010

Esperar

(Imagem da Web)



Espero e quase desespero por respostas estranhamente simples mas impossivelmente audíveis em tua boca. Quem és tu afinal? Amigo? Amigos não magoam, quer dizer…pelo menos eu creio nessa verdade – apenas minha? Esperas e tortuosas atitudes totalmente incompreensíveis vão traçando caminhos sinuosos, é isto que queres? Um inicio pleno de dúvidas, incertezas, inverdades. Dizes não querer, mas sofres por um qualquer não ter que ainda me soa ligeiramente a falso. Ponderar os passos que se dão não significa dar um salto no abismo e seguidamente correr para trás como forma de auto-preservação. O tempo tudo revela, doce sabedoria de quem não quer, de quem tem medo e de quem é cobarde! O amanhã é apenas o desenrolar de uma fita outrora gravada pelas mãos – sempre nossas. Desvendas-me com desenvolta cirurgia linguística e negas-me o direito a uma simples verdade que poderia tornar tudo tão…simples!
Escolheste um trajecto trôpego na expectativa de…? Ah, indecisão, é esse o termo. Indecisos são os fracos, e desses está o mundo cheio. E como se costuma dizer, deles não reza a história.
Ser feliz não deveria ser um plano para depois. Por mais estágios que existam de felicidade, todos eles são importantes, não entendo a necessidade julgada inerente de alguém abdicar de ser feliz por dúvidas, medos…tudo desculpas! Justificáveis? Nada justifica a renúncia à felicidade, a vida não é um filme ensaiado onde existem finais felizes ou infelizes, a vida é um jogo feito por nós, e para nós. Jogar traz riscos, assim como viver.

Segunda-feira, 13 de Dezembro de 2010

Renascer

Desafio semanal do Campeonato Nacional de Escrita Criativa:
Vista a pele de uma velha camisa de dormir que, por engano, é colocada no guarda-fatos mesmo junto à roupa mais luxuosa e cara.







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(Imagem da Web)



Era dia de arrumações, dia em que supostamente iria permanecer no mesmo canto, encafuada em mofo e desprezo. Já me acostumara a escuridão e ao desalento do rolar do tempo pelo infinito. Era apenas mais uma peça no meio de tantas outras que não produziam qualquer tipo de efeito quando avistada no meio de tanta lugubridade. A emoção do dia das arrumações havia-se desvanecido ao longo dos tempos, e o espreitar da luz do dia por entre os entalhes das portas era por si só algo mais que suficiente no desenrolar do dia a dia.

A porta abrira-se quase que por magia, dela emanava uma sensação de alegria, inovação e um suspiro – de alívio.

Fui levada com estranha leveza através dos vários compartimentos de uma casa em tons alegres, vivos, enérgicos. Para onde iria eu? Os corredores nada tinham a ver com o canto amorfo em que estava encostada – há séculos?

Cada espaço era movido por cores inebriantes e cheiros familiares – caseiros.

O transporte, meticulosamente cuidado, voluptuoso, erguia-me no alto como se houvesse medo em me encostar a um qualquer objecto capaz de interferir com a minha integridade física. Sentia-me protegida.

Quais portas da divina redenção e uma vida ausente de alegria, abriram-se diante de meus humildes botões quase que por magia, soltando um ar caloroso, reconfortante. Seria o meu novo lar – até quando? Depressa a minha alegria fora esquartejada pelo desviar repentino das outras peças que ali repousavam antes da minha chegada. Parecia ser portadora de algum tipo de enfermidade, tal era a repulsa provocada no meio do Oásis a que tinha chegado.

- Não pertences aqui!
- Porquê?
- És velha, gasta, demasiado usada para repousares neste pequeno canto de peças novas e cheias de vivacidade.
- Apenas serei o que quiserem que eu seja.
- Desengana-te minha querida, o teu tempo já passou.
- Sou feita da mais fina seda, embora gasta e usada, a minha qualidade jamais será ultrapassada pela modéstia das linhas que te compõem.
- Isso é o que tu pensas.
- Voltei, algo deverá significar.
- Por engano!
- Será? Incomodada ou não, eu vim para ficar, e tu, não sabes se no próximo dia de arrumações permanecerás neste canto luxuoso a que te achas fiel merecedora. Um dia, tal como todas as peças aqui presentes, passarás à história.
- Insolente!
- Mas feliz!




Texto escrito para o Campeonato Nacional de Escrita Criativa

Terça-feira, 7 de Dezembro de 2010

Inimigos ou promotores de felicidade?

Desafio semanal do Campeonato Nacional de Escrita Criativa:
Escreva uma lista de 15 mandamentos: como viver harmoniosamente com os inimigos. Máximo de 450 palavras.



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(Imagem da Web)





Zé, um homem do Alentejo, passava a vida a blasfemar contra este ou aquele que se aproximava da sua horta, parecera-lhe sempre que estavam a “rogar” pragas às suas colheitas.

- Comé compadre, esse girassol vinga ou na vinga?

Zé já nem respondia às provocações, mas a verdade é que o tiravam do sério. Depois de um dia exaustivo de lavoura já mal se sentia capaz de dar atenção à família, uns gratos por tal, outros nem tanto. Maria, sua esposa, era quem mais sofria com todo o azedume de Zé. Mulher dedicada e cumpridora das suas obrigações, cozinhava, passava e lavava, mas sentia o seu marido cada vez mais distante.

Zé parecia deglutir os alimentos sem os mastigar. Lentamente ia colocando pedaços de comida no orifício bucal e com a ajuda do vinho a comida ia descendo. Maria pasmada com o que presenciava lança de súbito um grito que fez estremecer as paredes lúgubres da cozinha enegrecida pelo fumo das panelas.

- Zé! Mas que raio se passa contigo homem?
- Que é que tu queres mulher?

Maria abandona a cozinha num rasgo de tristeza e sentimento de impotência. Contudo, Zé parecia nem ter notado o desaparecimento da esposa. Eis então quando Zé, soltando um sorriso de clarividência, dá um empurrão à cadeira que sustentava seu corpo pesado e procura nas gavetas um bloco e algo capaz de traçar algumas palavras em papel.

1. Deixar que os invejosos se aproximem o mais possível da colheita.
2. Gracejá-los com os lucros infindáveis de cada cultivo.
3. Abençoá-los com caixas da própria colheita.
4. Forrar-lhes o espírito com os segredos do sucesso.

E desta feita Zé começa a congeminar o sabor da vingança.

5. Durante a noite encher os terrenos dos invejosos com fertilizante em excesso de forma a envenenar a colheita.
6. Dar um ombro “amigo” aquando a chegada dos queixumes.
7. Oferecer ajuda.
8. Preparar merendas aos “amigos” que se mantinham a trabalhar até tarde.
9. Efectuar visitas rotineiras.
10. Blasfemar de todos os azares recentes em conjunto com os parceiros de lavoura.

- Que estás para aí a escrever todo contente homem?
- Deixa-me acabar isto mulher!

11. Chegar a casa de sorriso no rosto após o fim de cada dia de trabalho.
12. Agraciar a mulher com os mimos que ela merece.
13. Tomar atenção às notas que os gaiatos tiravam na escola.
14. Ajudar nas lides domésticas quando necessário.
15. Sentir-se feliz por cada dia que passava ao lado da mulher e dos filhos.

- Mulher, dá cá um abraço ao teu marido.
- Ai que o homem endoideceu.

Zé pega na folha rascunhada, e, feliz com a exortação experienciada, embrulha-a e deita-a no lixo.
Texto escrito para o Concurso Nacional de Escrita Criativa