Segunda-feira, 7 de Março de 2011

Um vazio cheio de ti

(Imagem da Web)



Tropeço em tentativas de realismo desmesurado quando me deparo com uma jornada irrealista e comedida por medos e receios de um talvez que nunca terá resposta! Vagueio num sonho incapaz de me trazer tranquilidade. Acordo! Ouço o ressoar dos ponteiros do relógio como martelos a irromperem aquando as sinapses ainda atordoadas de um sono profundo. Adoro o cheiro a manhã madrugada; - procuro o teu odor por entre o espaço que outrora ocupaste com tua doce desenvoltura e delicada presença. Em jeito revivalista sonho acordada com as gargalhadas que partilhávamos no desembrulhar da aurora, um “chega-te a mim” faz-me derramar uma lágrima. Deslizo pelos lençóis numa lentidão intencionada. Procuro tua pele macia, quente; - ofegante de mim. Amo-te no silêncio encastrado em todos os recantos de nosso leito. Tua pele, doce nácar que me deixa insaciada de nós, de ti! Alimentei-me de teu corpo como se fosses a própria vida em mim! SINTO a dor da tua ausência lacerar-me o corpo. ACORDO! Como te quero, agora, sempre…
Após uma meticulosa escolha do que vestir saio a rua e delicio-me com o sol que acaricia minha pele. O hoje é uma constante inserida numa equação indeterminada pelas incógnitas sem fim que deixaste com a tua partida. Desenho no meu imaginário o último adeus numa noite que prometia tudo menos uma despedida. Sempre vivi axiomaticamente a tua presença, nunca a tua ausência. Errei ao imaginar-te sempre meu num mundo que só contigo partilhei. Hoje vivo na clemência de um amanhã sem te acordar na memória com interrogações que provocam chagas em minha alma. Procurei-te noutros corpos com uma sede insaciável e hoje deito-me no vazio que construí em meu redor. Sinto-me incapaz, incapaz de sentir. Dói-me não conseguir; - sentir! Atiro-me todos os dias para uma solidão rodeada de gente - mas vazia, de ti!
Aprendi que para te “desamar” tenho de me aprisionar nesta solidão que construí entre muralhas impossíveis de escalar!
Sonhei demasiado tempo acordada!

Quinta-feira, 3 de Março de 2011

Fotografia de Carnaval


Manuel estremecera ao se colocar meticulosamente diante daquele captador de almas; - chamava-lhe ele – tudo naquele cenário, que para muitos seria edílico, para Manuel era palco de grandes anseios. Não só não acreditava na inocuidade daquele simples mas revolucionário aparelho como possuía um medo atroz de repousar em sua fronte. O misticismo envolto no simples acto de fotografar ainda deixava muitos consternados e até mesmo apavorados.
- Não sejas tolo Manuel, é só uma fotografia, nada de mal te vai acontecer!
Mas minhas palavras em nada consolavam aquela alma aturdida que se remexia por entre os demais na expectativa de escapar ao maléfico aparelho.

A professora em jeito de súplica reitera a ordem de sossego, na expectativa de ser a última, mas em vão. Era carnaval e fora sugerido a todos que levassem uma veste, improvisada ou não, com mais ou menos requinte, o importante era marcar o dia com uma bela fotografia encomendada ao Sr. António, o fotógrafo da aldeia; - o único.

Manuel e eu sempre fôramos os mais pobres, era um facto, mas no fundo os mais afortunados em matéria de felicidade. De caixas velhas e abandonadas criávamos autênticas obras de arte. Para nós brinquedos, para outros lixo.

Maria, minha doce mãe, aproveitara retalhos de roupas que sua patroa mandara jogar fora. Uma mulher arrogante e sisuda, capaz de crucificar minha pobre mãe se descobrisse que havia aproveitado um de seus vestidos jogados ao lixo. Como retalhos não contam história, deles nasceram um lindo vestido, uma dama, daquelas que viviam nas mansões onde a minha mãe trabalhava. Não era muito original, mas o que contava era a diferença, e decerto todos a iriam notar. Manuel, em jeito de resignação lá convence Amélia, sua mãe, a fazer o mesmo. Mas ele não queria marcar pela diferença, e sem qualquer pejo de suas origens pediu a sua mãe que lhe fizesse um traje onde transparecesse o seu futuro já presente. Engraxador!

Meu sorriso nada se assemelhava ao ar aterrado de Manuel, e antes que o Sr. António fizesse “explodir” aquele pozinho mágico fui enterrando meus pequenos dedos por todas as zonas que me eram admissíveis no frágil corpo do meu parceiro de aventuras e desventuras. Desaferrolhava largas gargalhadas na tentativa fortuita de que Manuel se desprendesse daquele casco que lhe emadeirava o rosto. Cerrara-se num impetuoso mal estar e dele se recusara sair. Mas as crianças, a quem lhes é permitida alguma condescendência em matéria de crueldade, exaltavam palavras pérfidas a Manuel, injuriando com a caixa da graxa e a sua farpela maltrapilha; - como lhe chamavam. E é num tom nada usual em Manuel que estremece a multidão em seu redor ao se aperceber de que ultrapassaram o limite. A professora ainda corre na tentativa de chegar ao encalço de Manuel, mas já era tarde. Manuel havia começado a desferir murros sem destino a quem se metesse à sua frente. Pobre professora, tão nova e sem saber como lidar com a cólera instalada acaba por se meter no meio dos miúdos e põe termo aquela violência.

Receando que algo mais acontecesse, a professora apressa o Sr. António para que tirasse a fotografia. Manuel, que antes se sentia impaciente, deixara desvanecer a angústia submetera-se então ao terror da máquina fotográfica. Ao contrário de mim, Manuel eternizou aquele momento com um ar pouco alegre.

- Vês, não custou assim tanto pois não.
- Não, mas que se calhar quando a máquina fica com a nossa alma acabamos por não sentir nada.
- E achas que se ficasses sem alma não ias sentir nada?
- Não sei.
- Deixa-te de disparates e vamos mas é fazer algo divertido.

Possuindo uns cêntimos ofertados por minha pobre mãe, convenço o Manuel a ir comigo comer um pão quentinho com manteiga. Era a nossa perdição, quando havia dinheiro à disposição, o que infelizmente não era assim tão vulgar.

Ainda trajados a rigor passámos o resto da tarde saboreando a liberdade de crianças pequenas, um tanto fingida, mas era uma tarde nossa, pois o certo era a realidade atropelar-nos a qualquer instante, relembrando-nos que apesar da nossa tenra idade éramos responsáveis por levar pão para a mesa.

Éramos tão jovens, tão inocentes na arte de viver, mas a dura realidade nunca nos amedrontou, sempre fora aquela em que havíamos sido embalados desde muito cedo, e a ela nos habituáramos sem qualquer pesar. Erguíamos a mãos mais uma vez e sorríamos um para o outro, o hoje era apenas mais um dia seguido de um amanhã totalmente igual e sem qualquer propensão à comodidade mundana!



Texto escrito para a Fábrica de Histórias