Lágrimas percorrem meu rosto como se procurassem um caminho, o vazio que se instala nesta noite gélida rasga meu corpo...véus negros cobrem-me escondendo-me de me mim...já mal me reconheço no que digo, no que penso...no que quero, ou penso querer...abro os olhos depois de tanto soluçar, sozinha, aqui, agora, nesta noite...sei-te tão longe, porque não te consigo deixar? A solidão embala-me enquanto uma musicalidade entra pelas paredes, e vejo-te, ali, a dançar nelas, comigo...relembro momentos de ternura trocados a dois, segredos partilhados em tons de sussurro, um quebrar de esferas intocáveis...um sem fim de beijos roubados numa clandestinidade...vejo tudo isso, e sinto saudade......sempre te disse que não tinha medo de ficar sozinha...mas neste momento, sinto-me sozinha...e cheia de medo...
...ouço uma música "nossa" e a tristeza atira-me contra o chão, suplicando que esta dor passe cerro os punhos e enrolo os braços em meu corpo...suplico a um Deus que não me ouve o quanto te quero esquecer, o quanto preciso deixar-te partir...
...deambulando em leves passos, saio destas paredes...abro o chuveiro e deixo-me ficar ali, de olhos fechados, a ouvir a água tocar em meu corpo, na sólida esperança de deixar de pensar em ti...
...o frio da noite relembra-me teus braços quentes, e como era bom neles me aconchegar em noites como esta...ver-te adormecer num tom angelical era...simplesmente algo...
...abro um livro e deixo-me absorver por letras miúdas, apenas letras miúdas, não as consigo ler...deixo-me ficar ali apenas na tentativa de que elas me roubem deste estado doentio em que instalei minha alma...mais uma noite, mais um querer fugir, mais um algo que não consigo decifrar e me mantém neste estado sombrio...nunca me senti tão perdida!
Dei-te o meu eu...e fiquei sem nada...sonhos destruídos por palavras, um gesto, uma cobardia...
...não era suposto amar-te, não era suposto viver a minha vida desejando que dela fizesses parte...
Acendo mais um cigarro, o cansaço denuncia-me, e num último acto desta peça vejo um pedaço de papel transformar-se em cinza...é desconcertante ver como tudo arde tão rápido, termina tão cedo, sem se conseguir dizer adeus...
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