Palavras para uma imagem

Escrevo hoje, pela primeira vez, sem uma imagem que defina o que aqui escrevo, não há imagem alguma que possa caracterizar tamanha dor.
Ele era o meu maior orgulho, a minha razão de lutar, um ser obstinado e de vincadas convicções, uma personalidade única de quem cedo começou a lutar nesta vida cruel, por nós e para nós. Um homem pujante e determinado. Um verdadeiro Pai!
Fui educada para ser forte, livre, para não temer nada nem ninguém, mas no momento que o perdi todas as minhas convicções foram abaladas.
Estava na minha hora de almoço quando recebi o telefonema mais doloroso da minha vida. Senti a pele rasgar-se num turbilhão de emoções, o cenário que me envolvia tornou-se gigante como se me fosse engolir em tanta dor, e sem conseguir ouvir ninguém as lágrimas que jorravam de meu rosto sucumbiram dando lugar a uma feição pálida, inexpressiva, revi todos os momentos contigo passados, o desespero aclamava para que esses momentos não acabassem, para que a vida me permitisse poder viver-te um pouco mais.
Foi um ápice desde que te vi numa cadeira de rodas até te entregares por completo a uma cama, o cansaço denunciava-me sempre que por mim chamavas. Já não sabia o que fazer para acalmar a tua dor diária, o teu sofrimento constante. Todos os dias um pouco de mim morria por dentro ao ver-te partir lentamente, ao ver-te entregares a vida de mão beijada, deixaste de lutar, porquê? Dizem-me constantemente que foi melhor assim. Tento não ser mal-educada, respondo afirmativamente e com a delicadeza que me é esperada, mas a vontade que assalta meu corpo é de gritar, gritar em tom de fúria, para que percebam a dor que me corrói, a dor que devasta meu ser, melhor seria ele nunca ter adoecido, ser hoje o que até a poucos meses ele era, o meu herói, o meu orgulho!
Ainda fardada fui buscar seu corpo, não sabia o que pensar, o que sentir, o que fazer, tinha de ter a força que minha mãe deixara desvanecer, ela precisava de mim!
A imagem de ti dentro de um par de tábuas bem arranjadas e ornamentadas fez meu corpo cair ao chão, como se nada mais fizesse sentido, como se eu própria não conseguisse mais pertencer a este mundo, era a constatação de uma realidade que eu recusava admitir! Foi tudo tão rápido, tão rápido, quando te encontrei tua pele ainda expulsava calor, beijei-te até as forças me arrasarem de novo contra o chão.
Aquele cheiro em tons florais provocou-me, tive vontade de te perfumar com algo decente que não aquele cheiro barato com que te besuntaram, ainda hoje sinto aquele cheiro nauseabundo entranhado em mim. Passei a noite ao teu lado, vi-te respirar, vi-te mexer, a loucura começara a tomar posse da minha percepção, já não conseguia discernir a realidade, estava tudo errado na minha mente, sempre que te olhava nada naquele cenário fazia sentido. Tu, coberto de flores, como era possível? Se eu pudesse e a sanidade não me fosse questionada, eu arrasaria com cada ramo de flores em ti sobreposto. Odeio convencionalismos, emoções e sentimentos não se treinam, não se coadunam consoante as situações, rompem de nós, são pura vontade própria e não pedem autorização para agir. Mas era muito mais importante as senhoras da aldeia verem-nos chorar avassaladoramente.
Olhava a volta e tudo o que via era um grupo de cotovias em plena conversa de taberna, quase que consegui imaginar a nossa volta um par de mesas de café e tabuleiros a passearem pelo meio com o chá das senhoras. Senti uma raiva tão grande por tamanho desrespeito, preferia estar ali sozinha ao teu lado, só queria que me deixassem contemplar-te nos últimos momentos que me restavam ao teu lado, até isso me foi roubado.
A vida levou-te sem qualquer piedade, fez-te sofrer até ao teu ultimo suspiro, impediu-me de te poder acompanhar um pouco mais…e sem mais poder fazer, limitei-me a ver a terra ser lançada sobre ti!
Esta será a última vez que escreverei para ti, lembrar-te em palavras novamente seria perpetuar uma dor que me consome. És, e serás sempre a minha imagem de amor, dedicação e fidelidade!
Amo-te.
História real produzida para a fábrica de histórias

Comentários

LUIS FERNANDES disse…
Bom dia, Ana. Lindo este seu desabafo de dor. Muito real, muito sentido. Gostei. Continue...
Voltarei para ler outras que virão.
Abraço.
Luís Fernandes
Vou tentar... não sei é se o comment será publicado. Tenho muitas dificuldades técnicas...
sei o que sentiste, passo a passo. Identifiquei-me com a forma como descreves a dor - tão nossa, só nossa... - , entendi a obscenidade inerente ao aspecto formal que sempre rodeia estes episódios. Escreves bem e descreves melhor ainda.
Abraço.
Olá, obrigada pelo seu comentário, obvio que o iría puplicar, só numa situação muito excepcional não publicaria a opinião de alguém. Gosto da opinião alheia, sempre. Vejo que se "reve" de alguma forma nestas minhas singulares palavras. Sempre que desejar partilhar uma palavra sobre este ou qualquer outro tema, por favor, não exite.
Abraço.
Anónimo disse…
Oh minha linda,que pena tenho de não ter estado contigo nesta altura,mas não te esqueças que estou sempre contigo,os bons amigos e companheiros ñunca se esquecem...
Força para continuar,não deve ser fácil mas tens de seguir em frente e lutar contra essa dor que te consome e lembra-te sempre que não estás sozinha...
Eu estarei sempre aqui,não para não te deixar cair mas para te ajudar a levantar...

Adoro-te miúda

Susana Mascarenhas