O dia em que te direi Amo-te

Reparei nela assim que entrou na sala de espera. Foi o som que primeiro me chamou a atenção, o estalar ritmado e seguro de saltos altos na cerâmica que cobria o chão. Ainda hoje, quando penso nisso, não consigo perceber como a ouvi chegar.

Matilde possuía a invulgar capacidade de fazer virar o rosto de qualquer homem por onde quer que passasse, cabelo de tom achocolatado cobria-lhe os ombros, franzina e de aspecto atlético, olhos de um verde lago que contrastavam em perfeita harmonia com a sua pele pálida. Era notória a sua satisfação por saber o efeito que produzia nas pessoas, inclusive mulheres.
Misteriosa e sem muito falar da sua vida, Matilde gostava de manter no seu local de trabalho um certo low profile, nunca ninguém ouvira falar de algum namorado seu. Matilde mantinha um excelente ambiente laboral com seus colegas, embora nunca deixando levantar uma ponta que fosse do seu véu invisível. Era preferível que assim fosse, pois dificilmente viriam com naturalidade a veemência com que vivia a sua vida. Ela considerava que fora das portas do seu consultório, poderia ser a Matilde, a Laura, a Susana…podia ser quem quisesse, e não somente a Dr.ª Matilde.

Eu era a única pessoa que conhecia o seu grande segredo oculto, incapaz de lhe admitir os ciúmes que sentia sempre que vinha para o meu gabinete contar mais uma de suas façanhas da noite anterior. Éramos amigos, parceiros de inconfidências, trabalhávamos juntos desde sempre, mas Matilde nunca me lançou outro olhar que não fosse de carinho, um carinho de irmão, talvez!
Imaginar-se a si própria numa relação rotineira em que o namorado a ia buscar ao trabalho, leva-la a casa, volta em quando irem jantar fora e para desanuviar ir ao cinema, era de todo algo que Matilde renegava. Além de não se imaginar nesse género de cenário, Matilde adorava a efervescência das suas noites!

Deitada no seu sofá, idolatrava o aconchego do lar e a liberdade de não ter de dar satisfações a ninguém. Mas, esse sossego era apenas momentâneo, logo cessaria o silêncio acutilante que pairava no ar inócuo de sua casa para dar lugar ao som estridente de uma mensagem no seu telemóvel.
– Estás ocupada esta noite?
Matilde sorriu sozinha, e limitou-se a deixar o suspense invadir a atmosfera. Ela sabia que saber fazer alguém esperar era não só uma arte como o condimento fundamental nesse género de “jogos”.
Matilde nada tinha para fazer, era óbvio, mas era mesmo necessário comunica-lo? Mordiscando o lábio inferior e semicerrando os olhos Matilde decide ser matreira.
- Estou muito ocupada, mas posso tentar despachar-me por volta das 21:30, dá para ti? Vamos beber um copo, que tal?

Matilde arranjara-se demoradamente, com verdadeiro hedonismo.
Tiago remexia o café já frio com a colher, mas esperava, oh se esperava! De cabelo acobreado a tocar no lóbulo da orelha, pele torrada do sol e a típica indumentária de um desportista, o sapato de vela dava-lhe um toque ligeiramente mais “clássico”. Ao chegar perto de Tiago, apressara o passo em sua direcção, estava atrasada meia hora, mais um dos truques que utilizava com extremo regozijo, e com um ar esbaforido diz:
- Desculpa, tentei ao máximo despachar-me, mas estava complicado!
Ao pedir desculpas, Matilde franziu a sobrancelha denotando um ar piedoso como quem pede perdão de algo terrível. Aquele ar doce pedindo clemência valera-lhe toda a atenção de Tiago que logo se aprontara em chamar o barman para lhe trazer uma bebida.
Conversa puxa conversa, se havia algo de que Matilde se orgulhava era de conseguir manter sempre um diálogo estimulante, divertido e interessante! Como era óbvio, a noite terminara como já vinha sendo habitual, um trocar de gargalhadas demasiado cúmplice com o posterior romper da porta do quarto de Tiago que mal aguentava de entusiasmo por envolver Matilde em seus braços.
Matilde nunca prometia amor eterno, era incapaz de dizer a alguém “amo-te”, repetia sempre a mesma conversa:
- Adoro estar contigo, é maravilhoso mantermos uma relação tão aberta, sem exigências, sem qualquer tipo de sentimento de obrigação, encontramo-nos quando podemos e estamos bem assim não estamos?
- Se preferes assim, eu estou bem assim Matilde. Sabes que me corta o coração cada vez que te vejo sair por aquela porta, nunca sei qual será o dia que te voltarei a ver. Mas se preferes…
Matilde sentia o cerco apertar cada vez que a resposta à sua pergunta suava relutante. Enfim, estava na hora de terminar, não naquele momento, talvez deixar que o tempo os afastasse seria a melhor solução!

Matilde não partilhava as suas noites de paixão com um só homem! Esse era o terrível dos segredos. Matilde mantinha contacto com pelo menos cinco homens diferentes, tudo dependia se acabava com alguém, ou conhecia outro, ela não procurava aventuras, elas acabavam sempre por lhe aparecer em qualquer instante. Sempre que se cruzava com algum dos seus “casos”, tinha sempre a desculpa ideal, sorria incandescentemente, acenava em gestos sôfregos até obter a sua atenção e dizia:
- Como estás? Olha, este é um amigo meu, o Diogo, Diogo, este é o Rui…
Uma conversa informal tomaria lugar por uns 5 minutos e Matilde despacha-se daquela situação embaraçosa com delicada mestria. Matilde nunca permitia que manifestações de carinho ocorressem em público, não eram permitidos beijos, abraços, mãos dadas, era por isso extremamente fácil fazer passar a imagem de um encontro casual com um grande amigo.

Matilde trazia dois cafés ainda a expulsar calor através da nuvem que condensava no ar devido ao frio cortante.
- Estás com um sorriso deslumbrante! Olha, preciso falar contigo…
Entrelaçando o braço no de Alberto diz:
- Nem imaginas a loucura que foi a noite passada, ele era…
- Matilde, preciso mesmo falar contigo…
- Ele é a personificação de Adônis
Entre um suspiro e uma quebra abrupta no raciocínio de Alberto, ele achara que talvez pudesse esperar para o dia seguinte uma conversa que já vinha sendo adiada a anos!
- Então, vá, conta-me lá onde conheceste esse Adônis!
História produzida para a fábrica de histórias

Comentários

LUIS FERNANDES disse…
Olá, princesa. Espectacular narrativa. Muito bem escrita e descrita. Mas, para mim, não é surpresa....
Obrigada Luis, um cavalheiro, como sempre..:)
Anónimo disse…
La ringrazio per Blog intiresny