O dia mais entediante da minha vida

(Imagem da web)

Uma estranha insensatez leva-me a deslocar este meu corpo enfadado ao maior dos túmulos sociais, as finanças! Crente de que seria a escolha acertada, encontro-me no meio de um trânsito colossal, penetrando no som das buzinas lamurientas a fim de descortinar um lugarzinho confortável que me escondesse do sol encalorado que se fazia sentir! Era o último dia para prestar contas dos meus humildes, para não dizer imorais, ganhos anuais! Mas já que as finanças fechariam cedo, decerto não iria ficar ali por muito tempo.

Para começar a tarde em beleza avistei uma turba de cauda inclinada para as ruas paralelas, mal conseguia distinguir o fim da fila de gente que roçava as paredes dos prédios em busca de uma sombra! Aquela imagem de holocausto instalado imobilizou meus passos! Deambulei na tentativa de que o meu raciocínio lógico me revelasse uma solução, mas foi em vão. Submeti-me à espera, que parecia infindável, na esperança de resolver as minhas obrigações fiscais.

O calor parecia não dar tréguas, e a escolha de umas sandálias de salto alto leva-me a um castigo tão mental como físico, começara a sentir os pés gritarem por entre as fitas que tanto idolatrei na montra da loja!

Ao chegar perto das portas que estremeciam pela luta do povo que desesperava por entrar dentro do edifício deliciosamente guarnecido de aparelhos de ar condicionado, começo a sentir o frenesim dos últimos minutos de espera desconcertante.

- Desculpe, mas vai ter de comprar outro boletim, preencheu os valores dos encargos de seguro no sítio errado.
Será que a mais bela invenção chamada corrector não serviria?
O meu rosto já não conseguia disfarçar o tédio acumulado por horas de espera.

Ao sair do edifício claustrofóbico que me bania de desfrutar de um dia de sol dirijo-me sofregamente ao meu carro, que por sinal, ostentava um autocolante gigante anunciando que o meu carro fora trancado pela polícia.

O fim daquele dia parecia tudo menos eminente!

Já em casa, derrubo meu corpo em direcção ao tão desejado sofá, mas com grande espanto e conseguindo romper por instantes o tédio instalado, sinto uma cólera avassaladora ao verificar que as pilhas do comando do televisor estavam também elas entediadas! Não podendo desfrutar do meu belo passatempo de zaping, procuro um livro e adormeço de tédio!
Texto escrito para o Campeonato Nacional de Escrita Criativa

Comentários