A viagem

Desafio da semana para o Campeonato Nacional de Escrita Criativa:
Escolha uma personagem de um filme, livro ou telenovela e coloque-a a viajar ao seu lado num comboio. O que vai acontecer?




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(Imagem da Web)

O frio fazia-se sentir de modo desnudo, a pele por entre as roupas invernais respondia com profunda agonia. O som do ferro a deslizar pelas calhas entalhadas faz-me escorregar no assento, velho, impregnado de histórias, de viagens, emoções. Em busca de um lenço gasto tacteava o interior da bolsa. No chão, um caminhar lento, sinuoso, aproximava-se do pequeno espaço por mim ocupado anunciando que teria companhia durante a viagem – e como se o corpo se fosse desmaterializar, o rosto contorcia-se juntamente com o entoar repugnante dos meus despojos doentios no lenço amarfanhado. Abro os olhos e vejo um jornal aberto a minha frente.

Desejei ter terminado a viagem de modo a nunca ter reconhecido o rosto que se escondia por trás daquele jornal – era tarde! Reconhecera-lhe o olhar enigmático, somente o vira numa ou noutra notícia de jornal, mas a sua fama perseguia-o. Senti um calafrio percorrer-me a espinha. O corpo, imóvel – era ele! Cada ruga vincava em seu rosto uma “doce amargura”, um crime, um roubo – de mais uma vida! Será que faria de mim sua vítima? Controlar-me-ia com a mesma sagacidade com que controlava outros inocentes? Um ligeiro rubor alastrou em minhas faces, ainda imóveis, inexpressivas, mas o olhar, esse sim, denunciou-me! Senti-me ser engolida num vácuo desconcertante criado pela ausência de palavras…

Um sorriso - meu deus, sou sua presa!

- A menina sente-se bem?

Ele dirigiu-se a mim, era o meu fim! A morbidez embutida naquela voz monocórdica exalava uma presença demoníaca, pronta a dilacerar a minha pele!
Revi toda a minha vida em breves segundos – jamais chegaria ao meu emprego – podia imaginar as minhas vísceras empaladas como troféu no cabedal que albergava meu corpo.

Acenei com a cabeça em sinal de resposta. Será que se daria por satisfeito ou iria querer mais de mim? Hannibal the cannibal, famoso pela sua astuta sabedoria. Teria eu um aspecto “saboroso”? O seu olhar parecia alimentar-se do meu medo! Oh meu Deus…meus pensamentos coagulavam, sentia cada sinapse em resposta do turbilhão de emoções que me avassalavam…

O dilatar do meu pavor parecia diverti-lo!

Segui-o com o olhar para me assegurar que saía do comboio – um traço de alívio! O seu olhar incrustante seguia-me, absorto, do lado de fora!

O jornal, deixado em cima do acento, exibia em letras gordas: - “Hannibal faz outra vítima, Lucinda de 23 anos, deixada no comboio onde viajava…”
Texto escrito para o Campeonato Nacional de Escrita Criativa

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