Era ainda madrugada quando Matilde acorda movida pela ansiedade de chegar ao placar onde haveriam de estar afixados os resultados de admissão ao ensino superior. Mal pregara olho durante a noite fixando-se no desembrulhar dos minutos que ia avistando no visor do despertador.
Seu pai apenas a conseguiu avistar através da janela, seguia numa correria desenfreada revelando por entre os lábios o resto do que seria uma sanduíche improvisada de pão com algo que esguichava num dos cantos. Abre a porta numa tentativa de se despedir mas em vão, Matilde esvoaçara no meio do carrossel das ruas de Lisboa sem margem para um adeus.
- Só espero que a nossa filha consiga entrar em medicina, valha-nos Deus se tal não acontecer.
- Não te preocupes homem, ela esforçou-se bastante, vais ver que vai conseguir.
- Deus te ouça Maria!
Matilde já mal se continha de tanta ansiedade. O caminho que já tantas vezes fizera parecia-lhe ter ganho quilómetros desmesurados impedindo-a de chegar ao destino, o tamborilar dos dedos na ombreira da janela do autocarro começara a irritar o viajante do lado que para evitar um duelo de palavras se levanta e solta o som arcaico em forma de protesto. Mas nada movia Matilde, toda a sua atenção estava focada em chegar ao maldito placar!
E, chegada junto ao placar, Matilde balbuciava um misto de grunhidos com um arfar fatigante, empurrando aqui e ali, esgueirando-se por entre os corpos bastante mais altos que o seu, e que naquele momento pareciam autênticas estátuas, Matilde consegue finalmente chegar junto do placar, “O” placar! E antes que seus olhos pudessem chegar ao seu nome, Matilde sente uma força hercúlea projectá-la para o lado.
- Mas tu estás louco? Quem pensas que és para me empurrares dessa maneira?
Um rosto inexpressivo gira em direcção de Matilde numa lentidão intencionada, uns olhos de um verde lagoa fitam-na como se a fossem dizimar e deixar em pedacinhos o seu pequeno corpo defronte do placar. E assim ficam por breves momentos, ameaçando-se com o olhar, na expectativa que o outro cedesse.
- Dinis, e tu?
- Mas tu és burro ou apenas um imbecil? Eu quero lá saber como te chamas! Desvia-te se faz favor que já me fizeste perder muito tempo.
- Estou a ver que a menina é arisca.
- Mais um gracejo e verás se sou arisca ou não!
Dinis ri-se descontroladamente impedindo que Matilde se concentrasse no motivo que a trouxera ali.
- Importas-te de me desamparar a loja? Mas que raio de praga me saíste tu!
Ainda no seguimento de uma gargalhada descontrolada Dinis interrompe Matilde – Algo me diz que nos voltaremos a encontrar. – e quando Matilde se prepara para o segundo round de insultos Dinis havia desaparecido, deixando apenas a oportunidade de ela se desforrar por insultos inaudíveis! – In your dreams asshole!
Reluzindo por todos os poros uma felicidade tão aguardada Matilde segue rumo a casa, cantarolando pelo caminho, despreocupada, retira o relógio do pulso e permite-se regozijar de um sol que banhava sua pele pálida e cansada dos livros que devorara na antecedência das férias que tanto merecia.
Mal colocara a chave na fechadura e Matilde sente alguém abrir a porta.
- Então minha filha, diz-me que entraste, por favor!
Matilde, conhecida pela sua diabrura, faz um ar triste ao seu pai, que se prontifica de imediato a abraçá-la antevendo o insucesso. Eis que Matilde grita euforicamente, - ENTREI! Paizinho, entrei. – Agarrando-a firmemente por entre os braços volumosos e reconfortantes, Matilde sente-se ser apertada por um tempo infinito, deliciando-se com o cheiro afectuoso e tranquilo do regaço do pai, onde se deixou ficar pelo tempo que ele entendeu necessário. - Só me apetece ir comprar os cadernos, procurar os livros que preciso… - Matilde mal se continha de tanta emoção que se esquecera por completo que o seu verão não iria ser igual ao dos seus colegas, cujas tarefas haviam terminado com o findar do ano lectivo. Mas nada a detinha, Matilde era de facto um ser obstinado, determinado, e trabalhar no verão para ajudar nas despesas da universidade parecia-lhe um preço miúdo a pagar.
Era o dia “F” para Matilde – finalmente! O inicio de algo tão ansiado e desejado, o curso de medicina.
- Desculpe, é esta a sala de Bioquímica?
- Ora ora, vejam lá se não é a menina rabugenta! – seguem-se as gargalhadas de Dinis que não se contem ao perceber que Matilde iria frequentar o mesmo curso que o seu.
- Eu não acredito nisto, só me faltava este… - e preparando-se para virar costas Matilde sente uma mão forte agarrar-lhe no ombro, e, num misto de perplexidade com vontade de degolar Dinis, Matilde lança um olhar colérico em tom de aviso!
- Não sejas casmurra, sim, esta é a sala de Bioquímica, tréguas?
- Se for para me ver livre de ti, dou-te as tréguas que tu quiseres.
Após a primeira aula, Matilde parecia emanar uma espécie de euforia, uma inquietude advinda pelo prazer em se sentar nas cadeiras por que tanto esperou. Aquela primeira aula fora um mero ritual de iniciação a que Matilde não pudera renunciar. Aturdida pela arquitectónica, ainda que mundana e simplista, da sala de aula, Matilde é interrompida por uma voz, infelizmente, familiar:
- Não queres ir tomar um café? Pago eu e assim ao menos posso redimir-me do que se passou a uns meses. Que dizes?
Matilde semicerra os olhos e respira fundo, - está bem, um café, que mal tem um café não é verdade.
Seu pai apenas a conseguiu avistar através da janela, seguia numa correria desenfreada revelando por entre os lábios o resto do que seria uma sanduíche improvisada de pão com algo que esguichava num dos cantos. Abre a porta numa tentativa de se despedir mas em vão, Matilde esvoaçara no meio do carrossel das ruas de Lisboa sem margem para um adeus.
- Só espero que a nossa filha consiga entrar em medicina, valha-nos Deus se tal não acontecer.
- Não te preocupes homem, ela esforçou-se bastante, vais ver que vai conseguir.
- Deus te ouça Maria!
Matilde já mal se continha de tanta ansiedade. O caminho que já tantas vezes fizera parecia-lhe ter ganho quilómetros desmesurados impedindo-a de chegar ao destino, o tamborilar dos dedos na ombreira da janela do autocarro começara a irritar o viajante do lado que para evitar um duelo de palavras se levanta e solta o som arcaico em forma de protesto. Mas nada movia Matilde, toda a sua atenção estava focada em chegar ao maldito placar!
E, chegada junto ao placar, Matilde balbuciava um misto de grunhidos com um arfar fatigante, empurrando aqui e ali, esgueirando-se por entre os corpos bastante mais altos que o seu, e que naquele momento pareciam autênticas estátuas, Matilde consegue finalmente chegar junto do placar, “O” placar! E antes que seus olhos pudessem chegar ao seu nome, Matilde sente uma força hercúlea projectá-la para o lado.
- Mas tu estás louco? Quem pensas que és para me empurrares dessa maneira?
Um rosto inexpressivo gira em direcção de Matilde numa lentidão intencionada, uns olhos de um verde lagoa fitam-na como se a fossem dizimar e deixar em pedacinhos o seu pequeno corpo defronte do placar. E assim ficam por breves momentos, ameaçando-se com o olhar, na expectativa que o outro cedesse.
- Dinis, e tu?
- Mas tu és burro ou apenas um imbecil? Eu quero lá saber como te chamas! Desvia-te se faz favor que já me fizeste perder muito tempo.
- Estou a ver que a menina é arisca.
- Mais um gracejo e verás se sou arisca ou não!
Dinis ri-se descontroladamente impedindo que Matilde se concentrasse no motivo que a trouxera ali.
- Importas-te de me desamparar a loja? Mas que raio de praga me saíste tu!
Ainda no seguimento de uma gargalhada descontrolada Dinis interrompe Matilde – Algo me diz que nos voltaremos a encontrar. – e quando Matilde se prepara para o segundo round de insultos Dinis havia desaparecido, deixando apenas a oportunidade de ela se desforrar por insultos inaudíveis! – In your dreams asshole!
Reluzindo por todos os poros uma felicidade tão aguardada Matilde segue rumo a casa, cantarolando pelo caminho, despreocupada, retira o relógio do pulso e permite-se regozijar de um sol que banhava sua pele pálida e cansada dos livros que devorara na antecedência das férias que tanto merecia.
Mal colocara a chave na fechadura e Matilde sente alguém abrir a porta.
- Então minha filha, diz-me que entraste, por favor!
Matilde, conhecida pela sua diabrura, faz um ar triste ao seu pai, que se prontifica de imediato a abraçá-la antevendo o insucesso. Eis que Matilde grita euforicamente, - ENTREI! Paizinho, entrei. – Agarrando-a firmemente por entre os braços volumosos e reconfortantes, Matilde sente-se ser apertada por um tempo infinito, deliciando-se com o cheiro afectuoso e tranquilo do regaço do pai, onde se deixou ficar pelo tempo que ele entendeu necessário. - Só me apetece ir comprar os cadernos, procurar os livros que preciso… - Matilde mal se continha de tanta emoção que se esquecera por completo que o seu verão não iria ser igual ao dos seus colegas, cujas tarefas haviam terminado com o findar do ano lectivo. Mas nada a detinha, Matilde era de facto um ser obstinado, determinado, e trabalhar no verão para ajudar nas despesas da universidade parecia-lhe um preço miúdo a pagar.
Era o dia “F” para Matilde – finalmente! O inicio de algo tão ansiado e desejado, o curso de medicina.
- Desculpe, é esta a sala de Bioquímica?
- Ora ora, vejam lá se não é a menina rabugenta! – seguem-se as gargalhadas de Dinis que não se contem ao perceber que Matilde iria frequentar o mesmo curso que o seu.
- Eu não acredito nisto, só me faltava este… - e preparando-se para virar costas Matilde sente uma mão forte agarrar-lhe no ombro, e, num misto de perplexidade com vontade de degolar Dinis, Matilde lança um olhar colérico em tom de aviso!
- Não sejas casmurra, sim, esta é a sala de Bioquímica, tréguas?
- Se for para me ver livre de ti, dou-te as tréguas que tu quiseres.
Após a primeira aula, Matilde parecia emanar uma espécie de euforia, uma inquietude advinda pelo prazer em se sentar nas cadeiras por que tanto esperou. Aquela primeira aula fora um mero ritual de iniciação a que Matilde não pudera renunciar. Aturdida pela arquitectónica, ainda que mundana e simplista, da sala de aula, Matilde é interrompida por uma voz, infelizmente, familiar:
- Não queres ir tomar um café? Pago eu e assim ao menos posso redimir-me do que se passou a uns meses. Que dizes?
Matilde semicerra os olhos e respira fundo, - está bem, um café, que mal tem um café não é verdade.

4 comentários:
"In your dreams asshole!??? LOLOLOLOL
Amiga só hoje li "a origem" e achei brutal. Tens que continuar. Tu brincas com as palavras como ninguém, continua.
Entretanto, a verdade é que a Matilde me faz lembrar alguém que eu conheço.... lol :)
Bjinhos
Obrigada amiga.
Faz-te lembrar alguém...hmmmmm...não faço a mais pálida ideia de quem estejas a falar...lol...:)
Vou continuar sim, já tenho umas ideias para dar rumo à história, só não sei se contínue com a "origem", ou se dê um saltinho à actualidade. Adorava ter em mente um fim provavél entre a Matilde e o Alberto, mas não queria nada muito vulgar...enfim, vou continuar a reunir bocadinhos de ideias para ver se sai alguma coisa decente.
Biju...
Linda, enquanto n decides o desfecho, entretém-me com a origem... PLEEEEAAASEEEEEEE :)
lol...
Copiado...:)
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