Quinta-feira, 18 de Agosto de 2011

O dia em que te direi Amo-te V



(Imagem da Web)




Um café que termina com um olhar quesito gera sempre algumas reservas e especulações, quiçá deambulações. Matilde interrogava-se do estranho facto de se sentir diferente com Dinis, acabara de mudar de opinião em relação ao outrora lacaio embirrento que conhecera defronte de um placar. Há quem diga e sugira que do ódio ao amor vai uma linha muito ténue e que pode levar mais do que uma vez ao reverso da medalha. Seria Matilde capaz de amar Dinis, e desamar? Quem ama desama e chega-se ao ódio de modo mais veloz que um piscar de olhos. Tais interpelações consternavam Matilde e moviam-lhe o chão, ilusoriamente firme, sob seus pés. As suas certezas estavam de abalada e causavam-lhe um tormento que tentava esconder como forma de manter o controlo e a falsa aparência de um ser dominante.
- Olá pequerrucha, então, preparada para uma saga de Anatomia? Ouvi dizer que a professora é uma bruxa vestida de Prada. – sucedem-se algumas gargalhadas estridentes, mas para surpresa de Dinis este não sentiu o mesmo de Matilde – Está tudo bem? Estás para aí calada, disse alguma coisa de errado? Não me digas que continuas chateada comigo, eu pensava que tínhamos arrumado de vez com todos os equívocos quando fomos beber café!
Um olhar tímido e esguio responde em tom de “por favor não faças muitas perguntas”.
- Mas nem sequer me respondes, porquê Matilde?
- Oh, estás a ficar tolo, claro que te respondo. Então, ah, pois, quer dizer, ainda nem conhecemos a professora, como é que podemos tirar já esse género de conclusões, não é verdade? – Matilde obriga-se a movimentar os lábios de forma a provocar algo semelhante com um sorriso, mas fora tão forçado que a consciencialização de tal lhe provoca um ligeiro rubor no rosto. – Vamos lá para a aula e deixa-te de coisas! – Dinis perde-se no pensamento inquirindo-se do que havia acabado de acontecer, dá por si a olhar para Matilde provocando em si uma expressão de pasmo. Matilde por breves momentos conseguiu imaginar um glaciar gigante a romper o chão do corredor labiríntico das salas de aula e gelar o ar que respirava.
- Ahahahah, Matilde, por momentos ia jurar que estavas com a “moca” da tua vida, fumaste algum antes de vir para cá?
Com tamanho disparate Matilde recupera o controlo e fita Dinis com o seu tão famoso “mau feitio”. – Mas tu estás parvo? Achas mesmo que fumo dessas coisas? Credo Dinis, que raio de aluna de Medicina era eu se andasse metida nessas coisas?
- Ui, eu julgava que eras de Lisboa, de repente parecias uma autêntica saloia a falar, diz-me que estás a gozar comigo!
- A gozar? Mas tu metes-te nessas coisas?
- Não foi isso que eu disse Matilde, apenas acho que estás a ser um bocado quadrada em relação ao tema, a merda dum charro não faz de ninguém um drogado inveterado.
- Ok, então achas normal pessoas como nós fumarem um “charrito”?
- Pessoas como nós? Vou fingir que não ouvi e vou acreditar que hoje estás simplesmente de mau humor.
- Não é nada disso, é só que… - Matilde fora impelida de rematar o seu raciocínio com a voz cáustica da professora de Anatomia, bolas, ela parecia mesmo uma bruxa vestida de Prada!

“Mas serei eu assim tão quadrada? Eu não acho certo consumir-se qualquer tipo de substância química só para poder usufruir de escassos momentos de «prazer», ainda por cima aquilo faz um mal desgraçado! Mas que raio de sentido faz eu estar a discutir este assunto com um miúdo que não se mete nisso? Ou agora tenho de defender os coitadinhos dos junkies que só sabem derreter o dinheiro naquela porcaria?”

Lá no fundo Matilde sabia que havia um motivo forte para lhe proliferar no pensamento o tema que ficara a pairar no ar entre ela e Dinis. Matilde não se considerava uma pessoa preconceituosa, e isso estava a tirar-lhe a tranquilidade, não bastara já o constrangimento que sentira por não saber lidar com um a nova interrogativa sobre o que sentia em relação a Dinis, agora descobria que talvez fosse preconceituosa, mais um gume mordaz da sociedade que julga todos pela mesma bitola? O dia de facto não estava a começar nada bem, a concentração esvoaçara juntamente com os seus pensamentos, mas logo a vil professora detecta o vácuo existente na cabeça de Matilde. E pousando a mão no ombro de Matilde enquanto se esconde atrás dela pergunta-lhe, - diga-me lá quais foram os conceitos que acabei de dar nos últimos cinco minutos? – Matilde sentia-se capaz de explodir de tanta vergonha. – Pois claro, mais uma aluna muda! Nem sei porque me canso, por mim eliminava logo uns quantos no primeiro dia de aulas, poupava nas despesas com alunos miseráveis e seleccionava de imediato o que valia a pena ter dentro da sala de aula. Pode sair, não a quero na minha sala enquanto não souber assumir uma postura que se coadune com a de um verdadeiro aluno de medicina. – Os olhos de Matilde rasgaram-se de espanto e desespero, logo ela, uma aluna brilhante e exemplar, a ser completamente enxovalhada na sua primeira aula de Anatomia.
- Desculpe professora, acho que não tem o direito de falar assim com os seus alunos!
Matilde sentia o coração saltar-lhe do peito, mas ainda assim consegue projectar alguma força para impelir Dinis de se “auto-esturricar” perante a “bruxa”. Sem descerrar os dentes súplica a Dinis que se cale, - D-i-n-i-s! Pára com isso, já estou a sair, esquece!
- Muito bem, pode acompanhar a sua colega e voltar apenas quando assumir uma atitude correcta.

- Então miúda, mas o que raio se passa contigo?
- Mas tu és louco? Que raio se passou ali dentro? Queres cavar a tua sepultura fá-lo sozinho ok!
- Wow, acho que te estás a esquecer de um pequeno pormenor, tu é que te enterraste até ao pescoço, eu bem te disse que a mulher era uma bruxa vestida de Prada.
Matilde desata num riso descontrolado e exultante, era a primeira constatação que fizera algum sentido até aquele momento.
- Miúda, agora para acabar bem o dia íamos fumar uma bela ganza, hein, que dizes?
Matilde continua a rir descontroladamente sem se aperceber de que Dinis falava a sério. E sentindo que estava a rir ridiculamente sente o borbulhar da alegria desvanecer-se, estava tão exausta de tanto rir que se sentiu arfar por breves momentos.
- Estás a brincar, certo?

1 comentários:

Daniela disse...

Aguardo ansiosamente a parte VI...