Poderia exibir um título exuberante ao estilo dramático corrente que exibe uma doçura encastrada; - falsa? Não, não me encontro decerto ao sabor do vento, tal atitude passiva e amorfa deixa-me aviltada numa inquietude de querer ir mais além do comum e vulgar. Este meu jeito distinto de ver a realidade torna-se, por vezes, num embaraço de sensações que se amontoam em crónicas vivas no meu consciente e me deslumbram diariamente impedindo-me de viver determinados momentos do mesmo modo que o comum dos mortais. Defeito?! A afectação ao mundano e ordinário prolifera-se em mim como uma úlcera viva e sangrenta capaz de me rasgar o interior e molestar o que de são existe em mim. Perco-me na viva luz do imaginário e temo por vezes de lá não ter forças para sair. Erro? Na mórbida sabujice pelo concreto que o ser humano teima em achar algo fascinante, deleito-me criando um pequeno e recôndito mundo que só a mim pertence e que floresce sempre que a conjuntura me permite; ou não! Vulgar seria se criasse um mundo alheio aos dos demais. Viver em dois mundos assimétricos em simultâneo é por demais delicioso e inebriante. Sinto, saboreio, vejo e escuto como todo o ser humano, apenas imagino de modo diferente. Contraceno um papel não ensaiado que me permite respirar numa atmosfera não modificada ou contaminada por ideais alheios. Sinto-me apenas livre num eu contrastante com o que eu vejo e sinto ser demasiado fugaz para conseguir respirar.
Como tal, amo, sonho e realizo-me de maneira diferente. Não que isso se note a olhos desapercebidos. Mas preciso isolar-me nesta cápsula intemporal que me vai protegendo da podridão que me rodeia.
Simplesmente um modo de viver!
Trago-te neste mundo isolado obrigando-te ao deleite de me saboreares sem que para isso te tenha de coagir. És meu, assim como de toda gente que em ti tropeça. O que levas de mim? O som? Ou o sabor incutido num cheiro transformado e mutilado por um corpo cansado? Ou será que gravas na memória do tempo a insensatez com que por vezes nos batalhamos? Debruças-te em meu regaço sem te aperceberes que me desassossegas. E tu? Deixas por vezes o cheiro das ruas lamacentas que gravam em si o deambular de folhas caídas e dejectos pútridos dos corpos cromossomáticamente evoluídos na esfera temporal. Recuso-me abraçar-te para sentir o que não quero. Lê-me o corpo através dos sentidos que fores capaz de absorver na efemeridade do momento em que por mim te cruzas. Para ti serei sempre novidade e a rotina não toma lugar em nenhuma plataforma.
Interrogo-me se estarei eu consciente da inconsciência que é falar com o vento. Mas neste mundo a consciência não toma lugar ou partido, e é nele que construo vagões cheios de memórias do que o vento de mim levou sem deixar nada em troca. Angustia? Não! Apenas constatações desprovidas de qualquer sentimento de perda ou moléstia. O ser humano não veio para viver o mundo, o mundo existe para viver de nós! Somos meras partículas no gigante vácuo que ninguém sabe onde começa ou sequer se termina. Vive-me, pois só assim saberei que o pulso que me dá vida faz alguma diferença na memória do tempo que todos acham fugaz!

2 comentários:
Muito bom texto, Ana, sem favor. Você escreve como poucos. Estou a repetir-me. Já o plasmei aqui.
Abraço.
Muito obrigada Luis, é bom ter sempre a sua sincera opinião, e como já lho disse noutras ocasiões, um comentário seu significa bastante para mim..
Abraço.
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