Aqui vai mais uma parte de uma história que eu comecei a criar já lá vai algum tempo. Quem se sentir curioso pode procurar os outros capítulos no meu blog. Todas as partes se encontrar com o mesmo título. Isto sou eu com alguma réstia de esperança de que alguém se dê ao trabalho de ler a lamechice que para aqui escrevo. Mas prometi a mim mesma que terminaria,eventualmente, a história.
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Um copo de vinho e uma mortalha. Por momentos deixou-se levar por uma espécie de transe, em que Matilde desconhecia quem sairia vencedor daquela batalha, ela ou a gansa que jazia inerte em cima da mesa de vidro que ocupava o centro da sala. Matilde recosta-se no seu confortável sofá. Uma música ambiente para ajuda-la a desligar-se da realidade e o resto seria obra do charro que fizera com a sabedoria de outros tempos.
Dinis saberia apreciar aquele momento…
Um rasgo de tristeza assola as memórias que tanto se esforçara por camuflar ao longo dos anos.
“Foste um idiota!”
Eram sete da manhã, e Matilde acorda ao som do estridente despertador que lhe assalta os sentidos tão violentamente como um tiroteio inesperado. A boca seca e uma dor de cabeça lancinante denunciam a noite passada. Um suspiro; mas o cansaço era tanto que não existia espaço para acomodar qualquer tipo de sentimento de culpa. Antes sim uma espécie de alívio por ter passado a noite anestesiada o suficiente para não ter de pensar no presente.
Queria evitar qualquer contacto possível com Alberto, mas já não ia trabalhar a dois dias e recusava-se sucumbir ao desalento. Não tinha o rosto propriamente iluminado de uma noite de sono tranquilo, mas era a Drª Matilde, e isso dava-lhe uma certa confiança.
Alberto era capaz de reconhecer o passo ritmado dos saltos altos daquela mulher em qualquer parte do mundo. Controlara-se para não correr em sua direcção como um miúdo exultante por um doce. Sentia-se culpado pelo que lhe fizera duas noites antes e achava que tinha sido um perfeito idiota. Talvez a possibilidade de ter Matilde num todo fosse demasiado irrealista, mas tinha tanta esperança que aquele pequeno “abanão” lhe mostrasse algo, talvez ao perceber que o poderia perder ela se declarasse de vez e deixasse de ser um cofre fechado a sete chaves. Quanto mais se aproximava de Matilde mais ele sentia que ela se refugiava num mundo só dela. Alberto nada sabia da sua vida, se tinha família, de onde vinha. Apenas sabia a universidade que tinha frequentado. Parecia que escondia um passado horrendo e que o queria apagar a todo o custo. Mas o que mais o afligia não era o passado de Matilde, era o presente, Alberto temia que o que eles tinham passado nos últimos meses não passasse de um romance fugaz ao sabor de meras noites de prazer. Alberto preparava-se para fazer um pedido de desculpas quando de súbito fora interpelado de modo rude e abrupto, num tom de voz a que já se tinha desabituado: “Bom dia Alberto!” – uma frase curta e gélida sem qualquer espaço para uma resposta. Sentiu-se ser esmagado numa fracção de segundos e permaneceu estático sem saber o que fazer ou responder.
Alberto conhecia ao pormenor o horário de Matilde e decide encontrá-la durante o almoço, fingindo ser uma casualidade. Obviamente seria desmascarado num ápice, mas tinha de se esforçar por tentar perceber o que se passava, sentia-se impelido de ir ao gabinete de Matilde pedir satisfações, mas precisava falar com ela a todo o custo.
- Está tudo bem contigo? Notei que não apareceste nos últimos dias!
- Notaste?
- Claro que sim, e hoje estranhei a falta do meu café matinal. – Alberto ousara utilizar um gracejo como forma de quebrar o gelo, mas fora em vão. Matilde respondera-lhe com um olhar vazio. – Mas diz-me, está tudo bem contigo?
- E porque é que não haveria de estar? Precisei apenas de uns dias para resolver uns problemas pessoais. – Matilde recusava-se a admitir que tinha ficado em casa completamente amargurada.
- Que problemas?
- Ora essa, mas agora tenho de te dar satisfações da minha vida?
- Pensava que éramos amigos!
- Tens razão, somos amigos, o que não te dá o direito de desrespeitar a minha privacidade.
- Desrespeitar?
- Alberto, põe uma coisa na tua cabeça, o facto de termos ido para a cama umas quantas vezes não faz de ti nada mais que um colega e amigo. Percebes?
Matilde levanta-se fazendo notar que não queria continuar a conversa, o que deixa Alberto desolado e capaz de chorar como uma criança pequena. Teria sido a noite em que praticamente a expulsara de casa dele a causadora de toda aquela frieza?
Matilde percorria os corredores numa pressa invulgar com uma ansiedade desesperada por ficar sozinha no seu gabinete. Sentada, segurando o rosto com as mãos, interroga-se se estaria a ser sensata. Afinal de contas, ela amava Alberto, e trata-lo daquele modo poderia afastá-lo ainda mais. Não bastasse o facto de ele se ter começado a relacionar com outras mulheres, afasta-lo por completo poderia não ser o mais correcto. Mas não, Matilde precisava afasta-lo de si, se havia algo de que ela se sentia especialista era no controlo das emoções, e não seria, decerto, agora que iria descarrilar num desatino sentimental.
- Desculpa lá, mas por que raio me trataste daquela maneira? – Matilde abre os olhos perante o susto de verificar que Alberto a seguira até ao gabinete pedindo-lhe explicações sobre algo de que nem ela sabia as respostas. – Foi por causa do que se passou no outro dia em minha casa? Sabes, eu…
- Não vamos voltar a falar sobre isso, tu tens a tua vida e eu respeito isso, não precisas dar-me justificações.
- Mas é sobre isso que eu preciso falar contigo, é que…
- Já disse Alberto, não precisas explicar-me nada! Agora se me dás licença tenho uma consulta marcada.
- Não, não tens, e vais ter de me ouvir! – Por breves momentos Matilde susteve-se, era um facto que Alberto conhecia a sua rotina melhor do que ninguém. Não tinha outro remédio senão ouvi-lo.
- Então diz lá o que queres dizer.
- Naquela noite dormi sozinho, apenas te quis sacudir a consciência.
- Desculpa? Estas a tentar dizer-me que nada do que disseste era verdade e que eu fui até lá tentar comemorar contigo algo importante para mim e que fui escorraçada por capricho teu?
- Em parte, sim, mas não da maneira que estás a pensar.
- Acho que não há mais nada para falar. Sempre fomos amigos, e o que nós tivemos já deveria ter terminado a muito tempo, por isso, até foi um favor que me fizeste.
- Foi mesmo? Do que é que tu tens tanto medo?
- Ora, não seja infantil. Do que é que eu haveria de ter medo?
- Não sei, parece que tens pavor a compromissos, isso deverá ter uma justificação, suponho.
- Supões mal, já deverias saber que não sou pessoa de compromissos e ponto final, não existe nenhuma história sórdida que o justifique. Sou assim porque sou e nada mais. Não tentes arranjar desculpas para o que se passou connosco.
- Não acredito.
- Problema teu Alberto. Eu nunca te prometi mais do que o que nós tivemos. Foi bom, mas não passou disso. – Mentira deslavada, pensou Matilde. Desejava mais do que tudo ter coragem para lhe admitir o quanto precisava dele na sua vida. Porque seria ela incapaz de dar o braço a torcer? Dinis, era sem dúvida a causa de tanto tormento. Mas não, não era capaz de o admitir ou sequer falar sobre tal com Alberto. Afastá-lo era a melhor solução, acabavam-se as expectativas, os interrogatórios.
- Não estás a ser sincera. Mas eu respeito. E vou esperar que sejas tu a ir ao meu gabinete, ou até a minha casa explicar-me o porquê. Não tenho ninguém e não vou ter enquanto te amar e sentir que vale a pena lutar por ti.
Dinis saberia apreciar aquele momento…
Um rasgo de tristeza assola as memórias que tanto se esforçara por camuflar ao longo dos anos.
“Foste um idiota!”
Eram sete da manhã, e Matilde acorda ao som do estridente despertador que lhe assalta os sentidos tão violentamente como um tiroteio inesperado. A boca seca e uma dor de cabeça lancinante denunciam a noite passada. Um suspiro; mas o cansaço era tanto que não existia espaço para acomodar qualquer tipo de sentimento de culpa. Antes sim uma espécie de alívio por ter passado a noite anestesiada o suficiente para não ter de pensar no presente.
Queria evitar qualquer contacto possível com Alberto, mas já não ia trabalhar a dois dias e recusava-se sucumbir ao desalento. Não tinha o rosto propriamente iluminado de uma noite de sono tranquilo, mas era a Drª Matilde, e isso dava-lhe uma certa confiança.
Alberto era capaz de reconhecer o passo ritmado dos saltos altos daquela mulher em qualquer parte do mundo. Controlara-se para não correr em sua direcção como um miúdo exultante por um doce. Sentia-se culpado pelo que lhe fizera duas noites antes e achava que tinha sido um perfeito idiota. Talvez a possibilidade de ter Matilde num todo fosse demasiado irrealista, mas tinha tanta esperança que aquele pequeno “abanão” lhe mostrasse algo, talvez ao perceber que o poderia perder ela se declarasse de vez e deixasse de ser um cofre fechado a sete chaves. Quanto mais se aproximava de Matilde mais ele sentia que ela se refugiava num mundo só dela. Alberto nada sabia da sua vida, se tinha família, de onde vinha. Apenas sabia a universidade que tinha frequentado. Parecia que escondia um passado horrendo e que o queria apagar a todo o custo. Mas o que mais o afligia não era o passado de Matilde, era o presente, Alberto temia que o que eles tinham passado nos últimos meses não passasse de um romance fugaz ao sabor de meras noites de prazer. Alberto preparava-se para fazer um pedido de desculpas quando de súbito fora interpelado de modo rude e abrupto, num tom de voz a que já se tinha desabituado: “Bom dia Alberto!” – uma frase curta e gélida sem qualquer espaço para uma resposta. Sentiu-se ser esmagado numa fracção de segundos e permaneceu estático sem saber o que fazer ou responder.
Alberto conhecia ao pormenor o horário de Matilde e decide encontrá-la durante o almoço, fingindo ser uma casualidade. Obviamente seria desmascarado num ápice, mas tinha de se esforçar por tentar perceber o que se passava, sentia-se impelido de ir ao gabinete de Matilde pedir satisfações, mas precisava falar com ela a todo o custo.
- Está tudo bem contigo? Notei que não apareceste nos últimos dias!
- Notaste?
- Claro que sim, e hoje estranhei a falta do meu café matinal. – Alberto ousara utilizar um gracejo como forma de quebrar o gelo, mas fora em vão. Matilde respondera-lhe com um olhar vazio. – Mas diz-me, está tudo bem contigo?
- E porque é que não haveria de estar? Precisei apenas de uns dias para resolver uns problemas pessoais. – Matilde recusava-se a admitir que tinha ficado em casa completamente amargurada.
- Que problemas?
- Ora essa, mas agora tenho de te dar satisfações da minha vida?
- Pensava que éramos amigos!
- Tens razão, somos amigos, o que não te dá o direito de desrespeitar a minha privacidade.
- Desrespeitar?
- Alberto, põe uma coisa na tua cabeça, o facto de termos ido para a cama umas quantas vezes não faz de ti nada mais que um colega e amigo. Percebes?
Matilde levanta-se fazendo notar que não queria continuar a conversa, o que deixa Alberto desolado e capaz de chorar como uma criança pequena. Teria sido a noite em que praticamente a expulsara de casa dele a causadora de toda aquela frieza?
Matilde percorria os corredores numa pressa invulgar com uma ansiedade desesperada por ficar sozinha no seu gabinete. Sentada, segurando o rosto com as mãos, interroga-se se estaria a ser sensata. Afinal de contas, ela amava Alberto, e trata-lo daquele modo poderia afastá-lo ainda mais. Não bastasse o facto de ele se ter começado a relacionar com outras mulheres, afasta-lo por completo poderia não ser o mais correcto. Mas não, Matilde precisava afasta-lo de si, se havia algo de que ela se sentia especialista era no controlo das emoções, e não seria, decerto, agora que iria descarrilar num desatino sentimental.
- Desculpa lá, mas por que raio me trataste daquela maneira? – Matilde abre os olhos perante o susto de verificar que Alberto a seguira até ao gabinete pedindo-lhe explicações sobre algo de que nem ela sabia as respostas. – Foi por causa do que se passou no outro dia em minha casa? Sabes, eu…
- Não vamos voltar a falar sobre isso, tu tens a tua vida e eu respeito isso, não precisas dar-me justificações.
- Mas é sobre isso que eu preciso falar contigo, é que…
- Já disse Alberto, não precisas explicar-me nada! Agora se me dás licença tenho uma consulta marcada.
- Não, não tens, e vais ter de me ouvir! – Por breves momentos Matilde susteve-se, era um facto que Alberto conhecia a sua rotina melhor do que ninguém. Não tinha outro remédio senão ouvi-lo.
- Então diz lá o que queres dizer.
- Naquela noite dormi sozinho, apenas te quis sacudir a consciência.
- Desculpa? Estas a tentar dizer-me que nada do que disseste era verdade e que eu fui até lá tentar comemorar contigo algo importante para mim e que fui escorraçada por capricho teu?
- Em parte, sim, mas não da maneira que estás a pensar.
- Acho que não há mais nada para falar. Sempre fomos amigos, e o que nós tivemos já deveria ter terminado a muito tempo, por isso, até foi um favor que me fizeste.
- Foi mesmo? Do que é que tu tens tanto medo?
- Ora, não seja infantil. Do que é que eu haveria de ter medo?
- Não sei, parece que tens pavor a compromissos, isso deverá ter uma justificação, suponho.
- Supões mal, já deverias saber que não sou pessoa de compromissos e ponto final, não existe nenhuma história sórdida que o justifique. Sou assim porque sou e nada mais. Não tentes arranjar desculpas para o que se passou connosco.
- Não acredito.
- Problema teu Alberto. Eu nunca te prometi mais do que o que nós tivemos. Foi bom, mas não passou disso. – Mentira deslavada, pensou Matilde. Desejava mais do que tudo ter coragem para lhe admitir o quanto precisava dele na sua vida. Porque seria ela incapaz de dar o braço a torcer? Dinis, era sem dúvida a causa de tanto tormento. Mas não, não era capaz de o admitir ou sequer falar sobre tal com Alberto. Afastá-lo era a melhor solução, acabavam-se as expectativas, os interrogatórios.
- Não estás a ser sincera. Mas eu respeito. E vou esperar que sejas tu a ir ao meu gabinete, ou até a minha casa explicar-me o porquê. Não tenho ninguém e não vou ter enquanto te amar e sentir que vale a pena lutar por ti.

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