O dia começava sempre ao som do mesmo ritual que se transformara condição única para iniciar a jornada, o rádio ligar-se-ia automaticamente na hora programada e uma musicalidade aleatória invadia os resquícios de dormência impregnados nos lençóis. Sara espreguiça-se hedónicamente expulsando os membros hirtos para fora da cúpula nocturna. O seu amigo rafeiro que encontrara na rua abandonado, faminto e mal cheiroso, jazia inerte num sono profundo ao lado da cama, e ao desmembrar-se dos lençóis que albergavam o corpo outrora fatigado, Sara dá-se conta de que aquele rafeiro, que nem coragem tinha tido para o alcunhar, era a sua única e verdadeira companhia. Um rasgo de tristeza assolou seus pensamentos e breves segundos serviram de palco para uma observação acerca do seu actual estado amoroso – talvez não só actual como já antigo. Sara não se relacionava amorosamente com ninguém haviam passados já muitos anos, e quando se interrogara sobre o porquê não lhe surgiu nenhuma resposta capaz de trazer tranquilidade. Não se considerava uma pessoa amargurada, com fantasmas ou qualquer outro sintoma que provocasse o afastamento propositado do sexo oposto. Mas facto era que se encontrava sozinha, e isso naquela manhã fizera-lha uma espécie massagem cerebral que lhe provou algum desconforto. Não obstante, levou a cabo o seguimento do que seria o ritual matinal de forma a sair de casa a horas de encontrar legumes e fruta fresca no supermercado.
- Desculpe, mas essa alface é minha, eu agarrei no saco primeiro! – Aquela voz surgira de forma repentina sem que sara se desse conta de ter cometido qualquer tipo de ilicitude. Vira o rosto, e ainda com a alface pendurada dentro de um saco translúcido, dá-se conta de um homem talvez da mesma idade e que esboça um sorriso algo ignóbil, pelo menos parecera-lhe por breves instantes.
- Peço desculpa, pode ficar com ela, pelo que posso verificar existem pelo menos mais uma dezena de sacos iguais a este ainda por resgatar. – Sara não achara que um confronto por causa de uma alface se justificasse, mas não se conteve em lançar uma piada.
- Estou a brincar, pode ficar com a alface.
- Mas você está a gozar comigo?
- Não, apenas queria um pretexto para a convidar a jantar comigo. – Sara balbucia alguns sons que pouco ou nada se traduzem em palavras e muito menos numa frase que pudesse dar corpo a algum raciocínio.
- Sente-se bem?
- Sim…claro…
- Sim, sente-se bem, ou sim aceita jantar comigo? – ser atropelada por um carro a alta velocidade teria tido um efeito muito mais célere, estava perplexa na conjuntura que se criara num espaço de tempo exíguo e não fazia ideia de como resolver o problema; seria mesmo um problema?
- Porque haveria eu de jantar consigo?
- No máximo terá de me dar algum crédito pelo modo como a abordei, não é todos os dias que somos interpelados pelo tipo que nos quer roubar a alface enquanto nos convida para jantar.
- Mas que prepotência…
- Então significa que aceita?
- Porquê essa conclusão?
- Se não o quisesse já me teria dito taxativamente e sem margem para dúvidas. – além de bonito e ousado também era perspicaz. E se ele for um pelintra da pior espécie, um violador, um assassino? Não, um assassino não poderia exibir um olhar tão terno…terno? Ainda a breves instantes era presunçoso… (arritmia cardíaca eminente)!
- Aceito beber um café consigo num bar aqui do centro comercial e nada mais.
- Nunca ouviu dizer que quando o risco de se pedir tão pouco pode levar ao não, então pede-se muito na esperança de se poder ficar com esse pouco. Vamos?
- Você gosta muito de ser armar em espertinho não é?
O café havia decorrido com extrema naturalidade, não existiu desconforto. Foi com algum espanto que Sara se deliciou de modo mais que prazeroso com aquele café. Não demorou para que todos os sábados passassem a ser palco de compras seguidas de um café na companhia de Ivo (era esse o seu nome).
- Mas diz-me, como é que é possível não teres namorado a mais de sete anos?
- Nem sei (risos), acho que ainda não aconteceu, ponto final.
- Mas não te sentes sozinha? – Sara lembrara-se daquele dia em que o conhecera e do que sentira momentos antes de sair de casa. Curioso o facto de ter sido o dia que o conheceu.
- Não, porque haveria de me sentir sozinha? Tenho a companhia do…bolas, ainda não lhe arranjei nome. Tenho um cão que achei na rua abandonado, mas ainda não fui capaz de lhe arranjar um nome.
- E que tal irmos os três passear esta tarde para resolver esse pequeno problema, um cão não pode não ter nome, isso é quase sacrilégio. (risos)
- Está bem, então encontramo-nos…
- Não te preocupes que não te peço a morada para te ir buscar, já reparei que tens muito medo de que eu saiba onde vives. Encontra-me no jardim da Estrela.
- Oh, não é isso, é que…
- Vá, não te preocupes, eu entendo e não preciso de explicações.
Ivo era compreensivo, meigo, doce. Será que estava a apaixonada? Não queria rotular aqueles momentos como algo eminentemente romântico. Mas era o que sentia e o borbulhar do estômago era sintoma disso mesmo. Apelidaram o animal de Bone pelo facto de terem achado hilariante o modo defendia um osso que lhe fora dado pelo Ivo. Ficaram a observar o animal sentados num banco e riram do rosnar desferido por um pombo se ter aproximado em busca de umas migalhas por ali deixadas, mas o Bone entendera a sua aproximação como uma ameaça ao seu tesouro, o osso.
Era um sábado igual aos outros, e Sara preparava-se para ir fazer as habituais compras e tomar o seu habitual café na companhia de Ivo. Ficou sentada a beira de uma mesa do estabelecimento onde era usual irem.
- Isto é para si minha senhora.
- Desculpe? Isto vem de onde?
- Foi um senhor que esteve aqui ontem e me pediu para lho entregar mal chegasse.
Era um embrulho pequeno, comum, e que dizia numa etiqueta «Feliz dia de S.Valentim». Sara esboça um sorriso e deixa-se levar pelo romantismo. Era dia dos namorados e nem se tinha dado conta, não havia comprado nada para ele. Estava surpreendida e agradada. «Estou apaixonado desde o primeiro dia em que te vi, não existem palavras que possam descrever o que sinto quando te aproximas, tudo o que eu julgara ser belo perdeu o brilho transformando-se em cinzas perto da beleza que transportas com esse teu jeito singelo. Não te estou a pedir em namoro oficial, se para ter a tua companhia tenho de me cingir aos cafés de sábado, então isso já é suficiente o bastante para tornar a minha vida mais completa!» Era tudo o que dizia uma folhinha que se encontrava dentro do embrulho que lhe chegara as mãos. Sara sentiu-se inundar de um amor enternecedor. Sorri, sempre na expectativa de o ver chegar.
Era já tarde e Ivo parecia não dar noticias. Olhou para o telemóvel e nada. Decide ligar-lhe e surpreendera-se ao ouvir a voz da caixa de correio. Talvez estivesse a preparar outra surpresa. Talvez lhe ligasse durante a tarde para desfrutarem do dia de S.Valentim. Sara segue rumo a casa e decide esperar, ainda invadida por uma estranha leveza e felicidade.
Almoça e recosta-se no sofá enquanto afagava o farto pêlo do Bone. Liga o televisor e ao ver as notícias depara-se com um crime hediondo que havia sido cometido perto do centro comercial que frequentava e onde tomava café com Ivo. Um assaltante na avidez de resgatar algo de valioso ao primeiro transeunte que ali passava espeta-lha uma navalha na zona abdominal, levando este a sucumbir ao abandono durante a manhã enquanto jazia nas traseiras de um edifício junto a um caixote de lixo. Fora encontrado já inanimado por um habitante que ali passava.
Sara sente o sangue a coagular nas veias e uma súbita vontade de chorar asfixia-lhe o pensamento enquanto imagina a possibilidade de ter sido Ivo a vítima.
Sara não sabia onde poderia encontra-lo, o único dado de que ambos possuíam era do contacto telefónico e nem esse estava acessível. Foi Ivo, Sara tinha a certeza lacónica de que era ele, e não sabia o que fazer.
Nunca mais tivera notícias de Ivo.
Era sábado e Sara não sentia coragem para ir as compras, não naquele lugar onde Ivo já não voltaria a aparecer.
Passaram-se seis meses até que ganhasse coragem de voltar à sua rotina. Sara encontrava-se diante das malditas alfaces que meses antes a tinham levado a conhecer Ivo – uma tristeza invade-a na surdina e instala-se enquanto vagueia nas suas memórias.
- Pensei que nunca mais te voltaria a pôr os olhos em cima. – Sara desvia o olhar sabendo que a voz que a abordava era a de Ivo, estaria a alucinar?
- Mas tu…tu…desapareceste?
- Parece que estás a ver um fantasma Sara.
- E estou…
- Desculpa se a minha declaração te perturbou, eu juro que nunca pensei que ficasses aborrecida comigo. Mas sentia-me apaixonado e precisava admitir-to. Já não suportava vir ter contigo sem to dizer. Planeei um dia fantástico de S.Valentim, mas fui assaltado no metro e roubaram-me o telemóvel. Desesperei, não sabia onde te encontrar e tinha o teu contacto gravado naquele maldito aparelho. Decidi esperar pelo próximo Sábado para te encontrar e explicar-te tudo, mas nunca mais apareceste.
- Sentias-te, já não sentes? – Sara deixa cair as lágrimas enquanto fita Ivo em busca de uma resposta.
- Sentia o quê?
- Apaixonado!
- Nunca deixei de sentir Sara.
- Desculpe, mas essa alface é minha, eu agarrei no saco primeiro! – Aquela voz surgira de forma repentina sem que sara se desse conta de ter cometido qualquer tipo de ilicitude. Vira o rosto, e ainda com a alface pendurada dentro de um saco translúcido, dá-se conta de um homem talvez da mesma idade e que esboça um sorriso algo ignóbil, pelo menos parecera-lhe por breves instantes.
- Peço desculpa, pode ficar com ela, pelo que posso verificar existem pelo menos mais uma dezena de sacos iguais a este ainda por resgatar. – Sara não achara que um confronto por causa de uma alface se justificasse, mas não se conteve em lançar uma piada.
- Estou a brincar, pode ficar com a alface.
- Mas você está a gozar comigo?
- Não, apenas queria um pretexto para a convidar a jantar comigo. – Sara balbucia alguns sons que pouco ou nada se traduzem em palavras e muito menos numa frase que pudesse dar corpo a algum raciocínio.
- Sente-se bem?
- Sim…claro…
- Sim, sente-se bem, ou sim aceita jantar comigo? – ser atropelada por um carro a alta velocidade teria tido um efeito muito mais célere, estava perplexa na conjuntura que se criara num espaço de tempo exíguo e não fazia ideia de como resolver o problema; seria mesmo um problema?
- Porque haveria eu de jantar consigo?
- No máximo terá de me dar algum crédito pelo modo como a abordei, não é todos os dias que somos interpelados pelo tipo que nos quer roubar a alface enquanto nos convida para jantar.
- Mas que prepotência…
- Então significa que aceita?
- Porquê essa conclusão?
- Se não o quisesse já me teria dito taxativamente e sem margem para dúvidas. – além de bonito e ousado também era perspicaz. E se ele for um pelintra da pior espécie, um violador, um assassino? Não, um assassino não poderia exibir um olhar tão terno…terno? Ainda a breves instantes era presunçoso… (arritmia cardíaca eminente)!
- Aceito beber um café consigo num bar aqui do centro comercial e nada mais.
- Nunca ouviu dizer que quando o risco de se pedir tão pouco pode levar ao não, então pede-se muito na esperança de se poder ficar com esse pouco. Vamos?
- Você gosta muito de ser armar em espertinho não é?
O café havia decorrido com extrema naturalidade, não existiu desconforto. Foi com algum espanto que Sara se deliciou de modo mais que prazeroso com aquele café. Não demorou para que todos os sábados passassem a ser palco de compras seguidas de um café na companhia de Ivo (era esse o seu nome).
- Mas diz-me, como é que é possível não teres namorado a mais de sete anos?
- Nem sei (risos), acho que ainda não aconteceu, ponto final.
- Mas não te sentes sozinha? – Sara lembrara-se daquele dia em que o conhecera e do que sentira momentos antes de sair de casa. Curioso o facto de ter sido o dia que o conheceu.
- Não, porque haveria de me sentir sozinha? Tenho a companhia do…bolas, ainda não lhe arranjei nome. Tenho um cão que achei na rua abandonado, mas ainda não fui capaz de lhe arranjar um nome.
- E que tal irmos os três passear esta tarde para resolver esse pequeno problema, um cão não pode não ter nome, isso é quase sacrilégio. (risos)
- Está bem, então encontramo-nos…
- Não te preocupes que não te peço a morada para te ir buscar, já reparei que tens muito medo de que eu saiba onde vives. Encontra-me no jardim da Estrela.
- Oh, não é isso, é que…
- Vá, não te preocupes, eu entendo e não preciso de explicações.
Ivo era compreensivo, meigo, doce. Será que estava a apaixonada? Não queria rotular aqueles momentos como algo eminentemente romântico. Mas era o que sentia e o borbulhar do estômago era sintoma disso mesmo. Apelidaram o animal de Bone pelo facto de terem achado hilariante o modo defendia um osso que lhe fora dado pelo Ivo. Ficaram a observar o animal sentados num banco e riram do rosnar desferido por um pombo se ter aproximado em busca de umas migalhas por ali deixadas, mas o Bone entendera a sua aproximação como uma ameaça ao seu tesouro, o osso.
Era um sábado igual aos outros, e Sara preparava-se para ir fazer as habituais compras e tomar o seu habitual café na companhia de Ivo. Ficou sentada a beira de uma mesa do estabelecimento onde era usual irem.
- Isto é para si minha senhora.
- Desculpe? Isto vem de onde?
- Foi um senhor que esteve aqui ontem e me pediu para lho entregar mal chegasse.
Era um embrulho pequeno, comum, e que dizia numa etiqueta «Feliz dia de S.Valentim». Sara esboça um sorriso e deixa-se levar pelo romantismo. Era dia dos namorados e nem se tinha dado conta, não havia comprado nada para ele. Estava surpreendida e agradada. «Estou apaixonado desde o primeiro dia em que te vi, não existem palavras que possam descrever o que sinto quando te aproximas, tudo o que eu julgara ser belo perdeu o brilho transformando-se em cinzas perto da beleza que transportas com esse teu jeito singelo. Não te estou a pedir em namoro oficial, se para ter a tua companhia tenho de me cingir aos cafés de sábado, então isso já é suficiente o bastante para tornar a minha vida mais completa!» Era tudo o que dizia uma folhinha que se encontrava dentro do embrulho que lhe chegara as mãos. Sara sentiu-se inundar de um amor enternecedor. Sorri, sempre na expectativa de o ver chegar.
Era já tarde e Ivo parecia não dar noticias. Olhou para o telemóvel e nada. Decide ligar-lhe e surpreendera-se ao ouvir a voz da caixa de correio. Talvez estivesse a preparar outra surpresa. Talvez lhe ligasse durante a tarde para desfrutarem do dia de S.Valentim. Sara segue rumo a casa e decide esperar, ainda invadida por uma estranha leveza e felicidade.
Almoça e recosta-se no sofá enquanto afagava o farto pêlo do Bone. Liga o televisor e ao ver as notícias depara-se com um crime hediondo que havia sido cometido perto do centro comercial que frequentava e onde tomava café com Ivo. Um assaltante na avidez de resgatar algo de valioso ao primeiro transeunte que ali passava espeta-lha uma navalha na zona abdominal, levando este a sucumbir ao abandono durante a manhã enquanto jazia nas traseiras de um edifício junto a um caixote de lixo. Fora encontrado já inanimado por um habitante que ali passava.
Sara sente o sangue a coagular nas veias e uma súbita vontade de chorar asfixia-lhe o pensamento enquanto imagina a possibilidade de ter sido Ivo a vítima.
Sara não sabia onde poderia encontra-lo, o único dado de que ambos possuíam era do contacto telefónico e nem esse estava acessível. Foi Ivo, Sara tinha a certeza lacónica de que era ele, e não sabia o que fazer.
Nunca mais tivera notícias de Ivo.
Era sábado e Sara não sentia coragem para ir as compras, não naquele lugar onde Ivo já não voltaria a aparecer.
Passaram-se seis meses até que ganhasse coragem de voltar à sua rotina. Sara encontrava-se diante das malditas alfaces que meses antes a tinham levado a conhecer Ivo – uma tristeza invade-a na surdina e instala-se enquanto vagueia nas suas memórias.
- Pensei que nunca mais te voltaria a pôr os olhos em cima. – Sara desvia o olhar sabendo que a voz que a abordava era a de Ivo, estaria a alucinar?
- Mas tu…tu…desapareceste?
- Parece que estás a ver um fantasma Sara.
- E estou…
- Desculpa se a minha declaração te perturbou, eu juro que nunca pensei que ficasses aborrecida comigo. Mas sentia-me apaixonado e precisava admitir-to. Já não suportava vir ter contigo sem to dizer. Planeei um dia fantástico de S.Valentim, mas fui assaltado no metro e roubaram-me o telemóvel. Desesperei, não sabia onde te encontrar e tinha o teu contacto gravado naquele maldito aparelho. Decidi esperar pelo próximo Sábado para te encontrar e explicar-te tudo, mas nunca mais apareceste.
- Sentias-te, já não sentes? – Sara deixa cair as lágrimas enquanto fita Ivo em busca de uma resposta.
- Sentia o quê?
- Apaixonado!
- Nunca deixei de sentir Sara.
História produziada para a Fábrica de Histórias

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