(Re)Acordar-te

(Imagem da Web)

Acordo extasiada de um Sonho profundo que me tolda o pensamento durante breves instantes, depois por breves horas; e por fim o dia inteiro.
Na tentativa de recordar o mais ínfimo pormenor do que fora um mero sonho cerro os olhos e obrigo a minha mente divagar em busca das imagens ofuscadas pelo despertar das sinapses ainda atordoadas. Vejo apenas um corpo, sei quem é o seu dono, conheço todas as curvas, sinais, imperfeições, conheço de cor a profundidade dos poros daquela pele fustigada pelo tempo. Mas porquê sonhar com ele?!
Escoaram anos a fio após a última vez que deslizara minhas mãos pela nudez daquele corpo. O deambular dos anos não nos afastara apenas fisicamente, a distância que nos atirara para o abismo tinha outra origem. A ganância de evoluirmos fora o catalisador para não mais nos reconhecermos através do olhar, do toque, da palavra. Há quem chame a este fenómeno de “Vida”. É irónico falar em vida como um fenómeno comum ao afastamento de duas pessoas que julgaram em tempos ser a sua união a única razão da sua existência; vida!
Não existe um culpado para tais coisas, nem mesmo a própria vida. Mas a verdade é que mergulhar em memórias há muito tempo escondidas fez-me deixar levar pelo eco do passado e interrogar-me sobre o motivo daquele sonho.

Não lhe vejo o rosto, apenas o corpo, completamente nu, estendido num espaço que não reconheço, não existe nada para além de um corpo, um beijo e um sussurrar impossível de traduzir. Sei que existiu um contexto, e é por ele que a minha mente se debate. Sonhos são uma espécie de expressão camuflada do nosso subconsciente. Acordei-te hoje em mim, impregnado de cheiros e sabores como há muito não acontecia. Curioso como a nossa memória consegue reconstruir tais sensações através de um simples sonho.

Passo o dia a divagar em memórias que me aguçam a saudade e me transportam para outras telas pintadas a aguarela. Cores vivas de anos imaturos em que tentámos ser o impossível na realidade que nos rodeava. Não existe angústia neste (re)acordar-te na memória, apenas a constatação de um grande amor. Sinto que passarei por esta vida relembrando-te em momentos díspares por motivos vários sem nunca perceber a causa, nem a necessidade de o fazer, sei apenas que assim será. Fazes parte do meu passado, do meu presente e do meu futuro.

Estamos distantes pela incapacidade de lidarmos com um presente que não admite redenções ao passado. Ambos fizemos escolhas, e entristece-me observar passivamente que nos abnegamos a um recomeço sem que para isso tenhamos de invocar demónios que já deveriam estar enterrados na esfera temporal. Preciso-te na minha vida pela cumplicidade que apenas contigo partilhei, por não saber ter a mesma desenvoltura perante outros, não por precisar amar-te de novo. Não preciso amar-te, apenas sentir a tua existência nesta minha humilde jornada. Talvez seja por isso que hoje te acordei na memória, por uma qualquer absurda necessidade de te ter na minha vida.

Atingimo-nos provocando uma ausência física forçada e tão surreal que chega a roçar o ridículo. Magoamo-nos por não nos sabermos aceitar nestes «nós» que nada mais são que o resultado natural de viver! Exorcizei-te por palavras como forma de te drenar da memória. Uma catarse necessária para te voltar a adormecer na consciência, até que um próximo sonho de traga até mim, mordendo-me as entranhas de porquês que nunca terão resposta, e ausências que jamais serão preenchidas.

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