Escrevo a pedido de um grande amigo que tropeçou no meu blog e lhe causou
uma profunda vontade em ler algo escrito sobre o tema em questão. Desde já peço
desculpa aos leitores que por aqui também tropeçam, pois nada de útil sairá
deste texto.
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(Imagem retirada da Web)
Aproximava-se o natal, e Maria desesperava pelo espírito natalício que abundava
na atmosfera invernal. A aproximação ao dia de natal perturbava-a como se
ela própria estivesse prestes ir para o purgatório ou algo digno de tão soturno
sentimento.
O seu casamento durava à uma eternidade, perdera total noção do momento em
que deixara de se sentir feliz; se é que alguma vez o fora.
É curiosa a forma que o ser humano tem em abandonar boas memórias como
justificação de um presente menos agradável. Ser feliz é o slogan de qualquer
um, quem não quer ser feliz? Será assim tão difícil definir a nossa própria
felicidade? E se em vez de esperarmos por esse mítico sentimento tão facilmente
alcançável por uns e tão espinhoso para outros, procurássemos no nosso âmago o
combustível para a nossa felicidade? Se em vez de esperarmos pelo natal, em
busca de uma qualquer redenção, fossemos nós os produtores deste filme não ensaiado
chamado vida e contracenássemos o papel principal na nossa própria felicidade?
Maria parecia disposta a arriscar qualquer coisa que fizesse quebrar a monotonia
do seu casamento, mas faltava-lhe a imaginação para tal. Anos e anos de
convivência e Maria via-se estupefacta por não fazer a menor ideia dos gostos
do marido. Nuno, um homem simples, cuja postura mostrava não viver de grandes
preocupações, simples era algo a que se acostumara, até mesmo na cama. O sexo
já não era o mesmo, faltava fogo, paixão, aquela miscelânea de sentimentos que
nos perturbam o corpo, aquela sensação de exaltação do espírito que nos corta a
respiração e nos faz olhar para o mundo com outros olhos. Tanto Nuno como Maria
se haviam esquecido do que isso era. Primeiro vieram os gaiatos, depois os
empregos. Tudo se tornara mais importante do que eles, tanto individualmente
como em casal.
Parada junto a uma vitrina Maria via a imagem da sua figura espelhada no
grosso vidro e não se reconhecia. Estava velha, pálida, sem brilho, completamente
opaca na sua expressão. Permaneceu junto à loja por uns bons dez minutos. Perdera
noção do tempo! "Desculpe, vejo-a parada na montra à tanto tempo, precisa de
ajuda para alguma coisa?"
Maria desejou que uma cratera se abrisse aos seus pés e a engolisse de
forma a desaparecer dali o mais rapidamente possível.
“Peço desculpa, estava a observar uns artigos que estão expostos, mas
certamente não terão o meu tamanho…”
Maria estava diante de uma sex shop que ostentava manequins vestidas de mãe
natal. E se a vergonha de ser abordada não a matou, a reação da menina da loja
ia provocando um ataque cardíaco a Maria.
“Venha daí, tenho ali um conjunto que é a sua cara.”
“Mas…”
“Está tudo em promoção, e tenho a certeza que o seu marido vai adorar.”
Enquanto puxava Maria pelo braço, a menina piscara-lhe o olho. O que quereria aquilo dizer? Será que ela achava que Maria precisava daquilo? Maria sentiu
insolência na atitude daquela gaita que não teria mais de uns 20 anos, e
enquanto era puxada para dentro da loja interrogava-se do porquê de seguir
aquela moça. Estaria ela também, por fim, curiosa se aquelas vestes lhe ficavam
bem? Seria do gosto do Nuno? Tantas interrogações e interjeições proferidas
mentalmente, e ainda assim, continuou a seguir a empregada.
Passada uma bela meia hora, Maria e Soraia (a empregada) riam descontroladamente.
Maria havia experimentado tudo o que havia de mãe natal, e enquanto ouvia as
histórias de sexo tórrido de Soraia, Maria ia percebendo que estava não só velha,
como ridiculamente desatualizada. Era fenomenal aquilo que os miúdos com aquela
idade faziam. Maria despida de qualquer preconceito decidiu seguir alguns
conselhos da Soraia. E que conselhos!
Maria exalava uma espécie de euforia
contida, o sorriso no seu rosto era nítido. “Ai o meu Nuno vai ficar maluco…”
Maria preparou tudo com o mais hábil requinte. Num dia que sabia que Nuno
ficaria a trabalhar até mais tarde, arranjou-se com demorada tranquilidade.
Vinho, velas, perfume, música, e o traje de mãe natal. Maria num estilo
burlesco! Não sabia se seriam nervos ou apenas inquietação em ver a reação do
marido ao entrar pelo quarto dentro. Maria deitou-se em mil e uma posições,
enquanto esperava que a porta do quarto se abrisse.
E ao som estridente do toque do telefone de casa, Maria dá um salto da
cama, e meio ensonada atende a chamada.
“ É a esposa do Sr. Nuno?” “Sim.” “É só para a informar que o seu marido deu
entrada no hospital…”
Maria nem quis saber o que tinha acontecido ao marido, mal soube o hospital
em que se encontrava vestiu o casaco que estava mais à mão e saiu porta fora
consumida em lágrimas. Maria sentia-se ridícula, saíra de casa ainda vestida de
mãe natal, mas o casaco era comprido e nada se notava. Arrependida por ansiar
um momento íntimo com o marido, percorreu as ruas da cidade com um sentimento
de repulsa.
“Desculpe, sabe dizer-me onde se encontra o meu marido, ele chama-se Nuno e
deu entrada esta noite.”
Maria corria pelos corredores do hospital como se tivesse de novo 30 anos.
Queria apenas encontrar o marido, dizer-lhe que o amava, que era o homem da sua
vida…
“Nuno, oh meu deus, o que é que te aconteceu?”
Nuno, com um ar tranquilo olha para a esposa e sorri. “ Oh querida,
desculpa lá este embaraço todo, cortei um dedo numa máquina, mas não é nada de
grave, tive só de levar uns pontos…”
Maria chorava de felicidade por perceber que o
marido se encontrava bem, e que não passara apenas de um susto. Afinal a
felicidade existia, e era tão simples alcançá-la! Olhou para o marido esboçando
um requinte de malandrice em seu sorriso; - maroto! "Maria, o que se passa?"
Maria aproveitou o facto de não ter despido a fantasia de mãe natal, e
decidiu ir mais além na sua loucura. Encontravam-se nas urgências, mas por uma
sorte incalculável, não havia vivalma naquele lugar. Sussurrando ao ouvido do
marido pergunta-lhe: “Queres um presente adiantado?“ Nuno franzindo o
sobrolho interroga-a com o olhar. Maria puxa as cortinas dando-lhes maior
privacidade, desabotoando o casaco sem o tirar, revela ao marido o que lhe
havia preparado. Nuno pasmado, olha para a mulher e diz-lhe ao ouvido: “ É o
melhor presente que me podias ter dado.” Sentada ao colo do marido fizeram amor
como já nem sabiam ser possível.
Regressaram a casa de mãos dadas, como dois jovens acabados de experimentar o
primeiro beijo.

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